Ainda parece estranho para alguns poucos o fato de eu escrever há tanto tempo. Parece igualmente esquisito para outros o fato de eu continuar a gostar de ler. Incomodam-se alguns ao saberem que a boa música me enternece. Deveriam estranhar que eu nunca soube cantar. Sou absolutamente desafinado. Tentei ser pianista e desisti com a desculpa de que era canhoto. Seis meses foi o tempo que a pianista Maria Helena Cabral perdeu comigo. Fui um péssimo jogador de futebol, só entrei em time de basquete quando não havia ninguém para completar o quinteto. Meti-me a participar de peladas de vôlei e quebrei o escafódio. Deixei o vôlei, mas descobri que tem um ossinho no punho com esse nome. No Exército, pus-me a atirar com revólver, fuzil e metralhadora e fui um fiasco. Passei por um triz. O que me restava era ler e isso eu fazia em um canto da casa dos meus pais por onde não passava ninguém. Era uma passagem de serviço por trás da garagem. Ninguém me via, nem ouvia, pois o ato de ler merece silêncio. E lia sempre desconfiando de quem escrevia. Será que isto é assim mesmo? E usava um lápis como arma para sublinhar, rabiscar e – pasmem – até discordar do autor que estava lendo. Como não conhecia nenhum escritor vivo, não tinha como imaginar a sua figura. Eu me imaginava um roteirista ou diretor de cinema e ia formando imagens do que estava a ler. Comecei a ler José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. Como não tinha participado de rodas literárias, pus-me a ler o que não era devido. Assim é que me apaixonei pelos escritos de Monteiro Lobato, não os livros infantis, mas A Barca de Gleyre. Li um pouco de André Maurois. Ele tinha sido presidente da Academia Francesa e eu pouco me importava com isso. Gostava de seus textos e pronto. Depois, encarei Dostoievski sem saber dos muitos nomes de cada personagem e da densidade de seus temas. O lápis era meu aliado na concatenação das idéias para fazer anotações à margem ou inventar uma espécie de glossário. Não desistia. E foi assim, errando e descobrindo, que o hábito da leitura tomou conta de mim. A propósito, a Bienal do Rio de Janeiro terminou agora e a maior atração foi José Mayer lendo texto de Érico Veríssimo. Está na hora de se repensar a função e a relação das bienais com o público. O povo que entender o que os escritores dizem. As bienais não podem ser fogueiras da vaidade de A ou B. Voltando ao fio: nada me agrada mais que um bom livro e fico triste quando recebo um best-seller de presente. Tenho, então, a certeza de que a pessoa não conhece os meus hábitos ou quis se basear em lista dos livros mais vendidos. Este ano, por exemplo, ganhei dois exemplares de um livro que não sai do primeiro lugar. Uma lástima melosa falando de um pai e morte da filha. Assim é que a minha desconfiança na leitura ou uma espécie de distanciamento crítico parece ter uma explicação psicanalítica. Complexo, não? Fui criando coragem e comecei a escrever diários para me acostumar com o fato de que poderia ler o que havia escrito. É bom ler o que se escreve, mesmo que seja bobagem. Melhor ainda é reler. É por estas razões acima expostas que o consegui trazer até o ponto final. Consegui?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/09/2009

