Um dia, há muitos anos, em uma dessas viagens noturnas aos Estados Unidos, conheci uma pessoa. Era uma viagem festiva, pois inaugurava linha aérea de uma companhia que não mais existe. Não, não era a Varig. Todos muito bem tratados pelos comissários e até um, que se fizera bêbado e incomodava os que procuravam dormir, só foi censurado quando apelou para a agressão verbal repetida a um dos pacíficos passageiros.
Chegamos e o bêbado, num passe de mágica, recuperou-se de sua carraspana, ficou sóbrio a tempo de responder as perguntas que os guardas aduaneiros faziam. Mas dizia que, nesse voo, conheci e distingui uma pessoa, entre tantas outras. A perdi de vista no aeroporto. Para onde teria levado suas malas? Moraria por lá ou era uma visitante como eu? A mão do destino me fez, inocentemente, ir a certo hotel distante procurar um amigo. Soube lá que o amigo havia se mandado para outro estado a fazer pesquisas sobre criminologia, especialmente a era do surgimento da máfia e de seus principais personagens. Sem ter o que fazer, sentei no bar do dito hotel e lá estava a tal pessoa, a que havia visto no avião e me chamara a atenção por seu porte bonito e até a forma elegante de fingir não ouvir as diatribes do bêbado já mencionado.
Acerquei-me e a cumprimentei. Estava triste, era visível seu ar de desencanto e angústia. Não sei bem a razão mas, sem intimidade alguma, falei para ela que viagem não resolve problema de ninguém, apenas o adia e, muitas vezes tem o condão de estragar o que se pretende ver. E disse mais: não adianta fugir de sua realidade e por aí fui. Ela me chamou de bruxo por ter lido o seu pensamento, o que parecia óbvio para mim. As pessoas, quase sempre, deixam pistas no rosto do que a alma não consegue resolver. E foi aí, em meio a confissões vindas a seguir, que se formou uma amizade que vara os tempos, não lastreada na presença física, no contato pessoal, mas na troca de sentimentos, na capacidade de ouvir o outro, mesmo que não se tenha resposta, pois as respostas estão, quase sempre, guardadas dentro de nós. O outro, quando muito, nos sacoleja e dá coragem para remexermos no nosso eu profundo e encarar ou negar a realidade que nos aflige com ou sem razão.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/08/2006.

