Alguns comportamentos são repetitivos. Por exemplo: você encontra com alguém e esquece que assumiu compromissos com outra pessoa. Por amizade, amor ou mera gentileza, deveria fazer o favor de comunicar a sua ausência.
É provável que essa característica não seja um defeito, mas um hábito. E os hábitos ficam entranhados e passam a ser naturais para quem os têm. Há ainda artifícios que muitos usam, como o de dizer que está sempre cansado, doente, cheio de problemas e afins. Essa tendência, como uma espécie de defesa, pode levar, inclusive, à somatização que cria doenças de verdade. O corpo obedece ao que é repetido, sempre.
Todos sabemos da importância da família e mais ainda das singularidades de cada uma, mas deve haver um mínimo de delicadeza no trato uns com os outros, na não dramatização de problemas pessoais que, por si sós, já são complicados.
As relações pessoais não podem ser tolhidas por nossas conveniências, pois assim estaremos cuidando apenas do eu que sou e não do nós que uma relação cria. Algumas pessoas, por caminhos diferentes, foram habituadas a ditar as regras de uma relação. Por tal razão, talvez, as relações pretéritas dessas pessoas não tenham sido boas. Não há boa relação se ela não for franca, civilizada e consequente. Isto não implica em descaracterizar a nossa personalidade, nem invadir a privacidade do outro, tampouco abolir a família, mas ajustá-la a uma relação saudável e não traumática.
Se alguém fica feliz com a alegria e o bem-estar do outro, é natural que a pessoa que é o foco da atenção também deva se comprometer. Uma simples ligação de dois minutos pode ser esclarecedora; uma atitude respeitosa sempre é entendida, mas a arma usada do telefone desligado, no silencioso ou não atendido é uma forma, no mínimo, não afetuosa ou educada de comportamento, para não falar de desrespeito. Cria-se um biombo na comunicação e na relação.
Não temos o predomínio da verdade, tudo o que se disse acima pode não ter sentido para você, mas pode fazer sentido para quem vive misturado com os seus sentimentos, sejam eles certos ou errados. Por essas razões e por não acreditar em relação com horas, momentos, dia ou mês previamente marcados, é que muitos se consideram absolutamente livres, até porque é outra característica pós-moderna a liberdade de agir, viver e interagir com as pessoas, na hora e nas condições que se quer.
Temos todos, hábitos arraigados. Por exemplo, o de não aceitar formas veladas ou ostensivas de desatenção. Ser amigo, simplesmente, pode parecer fácil, mas não é. O que mais se precisa é de cuidado. Não se não se pode continuar pensando e fazendo o que sempre se fez e não deu certo, sob pena de incorrer nos mesmos erros e resultados.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/11/2006.

