LISBOA E BARCELONA

Estou voltando de Barcelona. Foi o cansaço quem me mandou viajar. A corda estava esticada demais e resolvi dar uma paradinha de uns dias. Nada mais que isso. Direto, rápido e revigorante.
Primeiro foi Lisboa. Tenho uma relação muito amistosa com Lisboa. A primeira vez que vim ainda era tempo de Salazar, o velho ditador. Apaixonei-me pelo jeito meio pachorrento da Lisboa da década de 60. Os bondes, o fado, a velha Alfama, as ruas estreitas, a estufa fria, o Museu dos Coches, a Universidade de Lisboa, a Fundação Gulbekian, o Mosteiro dos Jerônimos, a praça Marquês de Pombal, onde, por uma dessas coincidências da vida encontrei agora dando autógrafos, como um autor comum, na Feira do Livro de Lisboa, José Saramago. Revi o Bairro Alto e o Rio Tejo de tantos versos e muita prosa. Comi a boa comida portuguesa que parece sempre, ter sido feita por uma velha tia gorda. Foi em Lisboa que conheci Victor Manuel Ribeiro, um português gentil que nos serviu de cicerone e veio dar com os costados aí no Brasil e passou a trabalhar comigo até a sua morte.
Hoje, Lisboa e Portugal, por extensão, tentam se ajustar às regras da Comunidade Europeia. Correm contra o atraso que os indicadores sociais demonstravam. Portugal é um país em transformação, uma viva ebulição, tentando promover o turismo, criar novas indústrias e serviços para os patrícios que saíam para empregos subalternos na França, Inglaterra e Alemanha e mandavam cheques mensais para suas recatadas mulheres, semi-analfabetas com suas roupas pudicas a cuidar dos miúdos.
Durante o período obscuro da ditadura de Franco, especialmente na Guerra Civil Espanhola, Barcelona, como catalã, se constituiu o núcleo central da resistência. Hoje é uma cidade onde os turistas se misturam aos nativos apressados no exercício de suas atividades, especialmente na metalurgia de transformação, na química fina e no imenso parque gráfico. Falar apenas na Costa do Sol e na Costa Brava como rotas turísticas que tem Barcelona como centro irradiador é ser simplista. Barcelona é muito mais do que se pode dizer em uma mera visita aos seus diversos museus, onde se destacam Miró e Picasso, a avenida La Rambla, o charmoso bairro Barceloneta, a Vila Olímpica, suas belíssimas igrejas, destacando-se a da Sagrada Família com a irreverência artística de Gaudí. O novo complexo turístico de Maremagnum com os seus restaurantes, bares e o passeio marítimo, é uma espécie de avenida à beira mar, frente ao mar Mediterrâneo.
Nesta primavera europeia, no meio de pessoas de uma língua assemelhada à nossa, embora martelado pelas ligações internacionais que teimam em reavivar os problemas e a cobrar minha volta, eu tento, em meio a “tapas” e “paellas”, recarregar minhas baterias jogando conversa fora, por exemplo, com uma tradutora americana, um editor espanhol de origem basca, um empresário brasileiro e um mestrando de comércio exterior.
Tudo isso com o bom propósito de reoxigenar-me e tentar assimilar as diatribes do nosso Brasil, tão rico e, paradoxalmente, tão pobre. É bom vir, mesmo com limitação de tempo. Melhor mesmo é voltar, pois em nossa terra é que tudo faz sentido, mesmo quando não há explicação lógica. O Brasil é como aquela pessoa a quem amamos muito, apesar de conhecer seus defeitos. Bendito Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/05/1999.