Era 1965, outono, tal qual agora, e o sopro da aventura me fez chegar a Portugal. Tempo de Oliveira Salazar. Políticos e intelectuais se sentiam amordaçados pela PID, a polícia política. Eu era um fedelho no início dos vinte e tinha sede de conhecer o mundo. O velho, principalmente. Lisboa foi e será sempre a minha entrada – e saída- para tudo o que tenho visto por este lado da terra. Escorado no parapeito da varanda do Hotel Mundial, oásis de cordialidade na Baixa, vejo que estou ao pegado do Rossio, Chiado, Restauradores e da Praça do Comércio. E saio a esmo singrando praças, avenidas, ruas e vielas e dou conta de que os nomes das ruas (dos Sapateiros, da Prata, do Ouro) têm a ver com o que as pessoas fazem. É a tradição e história dessa cidade que sofreu brutal terremoto e foi reerguida, graças à lucidez urbanística do Marquês de Pombal, após 1755. Está linda, mesmo na pureza conspurcada pelo progresso.
E não fujo à tentação de chegar à Rua Garret e tomar mais uma foto com a estátua em que se transformou Fernando Pessoa, esse burocrata cumpridor de horários e a maior expressão poética portuguesa do século passado. No outro lado da rua, entro na Livraria Bertrand e vejo livros, inclusive o último, Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, consagrado no romance histórico Equador e filho de Sophia de Mello Brayner que, além de poeta, é nome de avião da TAP. E já estou na esplanada da Praça do Comércio, custodiado monumento arquitetônico que dá a sensação de amplitude, desde o arco que fecha – ou abre- a Rua Augusta.
É assim mesmo, sempre que dou os costados por aqui, me perco em fazer o que quero. Desta vez, tomo um táxi e sigo para a Expo, centro de eventos criados em 1998. Venho ver a “Arte Lisboa”, acontecimento que reúne expressões definitivas ou emergentes das artes plásticas portuguesas e me ponho a fotografar quadros, instalações e esculturas. E já estou levando publicações. Uma é minha. Outra, para amigo letrado e acostumado em pensar a arte como enlevo. E lembro Pessoa: “O comboio abranda, é o Caís de Sodré, chego a Lisboa, mas não a uma conclusão”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2007.

