No livro “O Falecido Mattia Pascal”, de Luigi Pirandello, Nobel de Literatura em 1934, há fato ainda comum hoje em dia. Alguém morre, conta Pirandello. Foi o Monsenhor Boccamazza. Deixa o legado de livros para o município em que vivia. O município não deu à mínima “e deixou os livros empilhados, durante muitos e muitos anos, num amplo e úmido depósito, de onde, os tirou – podem imaginar em que estado – para guardá-los na igrejinha, fora de mão, de Santa Maria Liberal, dessagrada não sei por qual motivo”.
Essa constatação é fácil de constatar em sebos, quando livros, sequer lidos, alguns com dedicatórias amáveis, são encontrados aos montes. Os que escrevem devem ter a consciência de que esse pode ser o destino de alguns dos seus livros, mesmo que hajam gastado tempo para a sua elaboração, revisão, edição e, se for o caso, lançamentos com pouco ou muito público.
Há pessoas que declaram aos autores haver gostado muito dos seus livros, mas, na realidade, os folhearam vagamente. Reza a lenda que certo autor, desiludido, no seu último livro, a altura da centésima página, resolveu escrever um desaforo ao leitor com palavras de baixo calão.
Depois, sempre que encontrava algum dos prováveis leitores desse dito livro, perguntava: leu o livro? foi até ao fim? gostou? Os elogios eram sempre fartos, a comprovar mentiras, pois nenhum se referiu à trapaça que ele armara na página 100. Portanto, escuse-se de fazer questionamentos. Deixe que o leitor expresse a sua versão. Não fique triste, pior foi o caso do Monsenhor Boccamazza.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/08/2015

