LIVROS – Jornal O Estado

Hoje é o Dia do Livro. “Os livros governam o mundo, ou pelo menos aquelas nações que têm uma linguagem escrita. As outras não contam”. Quem disse isso foi Voltaire, escritor francês do século XVIII. E o padre Antônio Vieira dizia que “o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Ora, se o livro é tudo isso, por que se lê tão pouco neste Brasil? Será por que o livro é caro? Será por que não sabemos ler? Ou por que esta é uma nação que não conta? Já foi dito que um país pode ser considerado como civilizado quando se gasta mais com livros do que com goma de mascar.
Tenho, por prova provada, a convicção de que não há solidão quando se tem um bom livro. Pelo contrário, muitas vezes, ser interrompido ao ler, pode nos deixar tristes, embora acompanhados. O mundo atual tem encantos mais fáceis que a leitura de um livro. A televisão é uma delas, mas o livro nos faz pensar, criar, criticar, perceber, distinguir, elucidar, duvidar, enfim, nos dá capacidade de raciocinar criticamente. De não aceitar verdades que nos são impostas, de assumir atitudes dissonantes da maioria, de ter autocrítica, de rir de nós mesmos.
Ter livros, abri-los, lê-los, grifa-los, guardá-los ou emprestá-los são movimentos que dignificam uma pessoa, mesmo sendo tão simples. Alegrar-se ou indignar-se com o conteúdo de um livro é uma forma de demonstrar que estamos vivos, não desistimos de nossos sonhos, temos convicções, alimentamos esperanças e não nos acomodamos com a mediocridade do viver supérfluo, sem mergulhos na essência do existir.
Ler nos faz escrever com um pouco mais de segurança esta língua portuguesa tão cheia de armadilhas. Saber o usar o ponto, a crase, a vírgula. A propósito, conta a lenda que alguém foi condenado à morte pela Corte. Recorreu à autoridade suprema. Esta, respondeu: “Se o Tribunal condena eu não absolvo”. O réu verificou que a decisão não tinha pontuação, resolveu, então, pontuá-la a seu modo e, assim ficou: “Se o Tribunal condena, eu não: absolvo.” E, ladinamente, foi solto. Lendas à parte, os pontos e as vírgulas fazem sutis diferenças. mas para tentar aprender a usá-los é preciso ler. E ler sempre.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/10/2006.

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