LÚCIO E OSCAR – Diário do Nordeste

Seis da tarde. O avião fazia aproximação e ela já aparecia no visual. Eu estava à direita, na janela, do lado do pôr-do-sol terracota, inebriante aos olhos. Parecia uma grande fogueira deste junho. Descemos, leve estremecimento, taxiamento e o bruto cerra as turbinas. Somos metidos em um fole e a noite suave nos acolhe nesta cidade de estórias, intrigas passadas e atuais.
Nunca vim à Brasília a negócios, não entro em ministérios, autarquias, entidades ou bancos e nem procuro políticos. Venho por um amigo, apenas isso. Quero participar de sua alegria e sucesso, sem estardalhaço, com minha presença, tal qual sou, sem salamaleques. E o carro em que ando desfila pelos desenhos postos em betume do urbanista Lúcio Costa, o maior que este país já teve e terá. Sua visão genial de futuro é tão grande que a cidade, quase 50 anos após, ainda parece em esplendor, bela, ampla e pousada imaginariamente como um imenso e inamovível avião que mete o nariz nas entranhas desse solo barrento e ali se queda para todo o sempre.
E dos dois lados de tudo o que Lúcio Costa esboçou, além dos parques e lagos, está o crayon do arquiteto Oscar Niemeyer, com suas linhas curvas e retas traçadas, fazendo poesia concreta, não a de poetas tecedores de palavras, mas a transmudada a partir do olhar de quem a vê sinuosa e eloquente em seu silêncio e voz de concreto. E os arranjos atuais de luminotécnica, de forma difusa, realçam tudo o que a visão capta na plasticidade vertiginosa, pois adelgaçada no pós-futuro.
E não posso esquecer os olhos marotos de Juscelino Kubitschek, embevecido da obra dele, do construtor Israel Pinheiro, Lúcio e Oscar, que custou os olhos da cara de uma nação pobre, mas lhe deu identidade urbana, liberando-a de sua feição jeca e andrajosa. O país estava pronto para o futuro em 1960, mas havia o povo e este, na ignorância de que era possuído, não sabia escolher dirigentes e o caos se deu logo em 1962, e daí para cá todos sabem a história e as estórias que correm. Cada um com a sua versão e quem quiser que conte outra, pois esta é a minha.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/06/2007.

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