A longevidade, 92 anos do professor Luiz Cruz de Vasconcelos foi fruto de sua dura, intensa e profícua vida. Até bem pouco era salutar cumprimentá-lo ao andar nas manhãs ensolaradas da Avenida Beira-Mar. Fui seu aluno na cadeira de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da UFC. Cioso do seu mister, suas aulas não eram improvisações. Penalista consagrado com larga experiência em júris, o Prof. Luiz Cruz nos dava a sensação de que era possível entender não só a jurisprudência, a doutrina, mas até a prática – por ele exercida em todo o Estado, especialmente Fortaleza. Nascido em Granja, no norte do Estado, rincão que defendia com ardor cívico, notabilizou-se por ser, além de advogado e professor, um teórico da política filiado que foi ao não então pragmático Movimento Democrático Brasileiro. Na minha sala de memórias há uma foto especial. Foi batida no dia da minha colação de grau em Direito. Dela constam o então Reitor da UFC Antônio Martins Filho, sorrindo e cumprimentado a meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, que também sorria e o prof. Luiz Cruz, que, à época, ocupava a direção da Faculdade de Direito, olhando fixo para mim e trocando um abraço. Pouco tempo depois de formado, fui ter ao prof. Luiz Cruz. Contextualizo: eu coordenava um pioneiro projeto habitacional que inaugurava no mercado a construção financiada de edifícios ou, como se dizia, unidades multifamiliares. Não tínhamos o dinheiro para comprar o terreno escolhido, na Av. Luciano Carneiro. Descobri que era da família dele. Fui à sua casa, faceando a Igreja de Fátima, e ele me recebeu com alegria. Expliquei todo o processo do projeto para ele, dando-lhe, acima de tudo, a minha jovem palavra de que tudo seria pago em breve tempo. Ele levantou, olhou para mim e disse: eu confio em você, pode fazer. Prometido, cumprido. Construímos e entregamos, em prazo recorde, o Conjunto Luciano Carneiro. Depois, por muitas vezes, nos encontramos. Tive a honra de ser conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, da qual ele era o Presidente Honorário Vitalício, após ter sido seu Presidente. Esse homem, mesmo depois de ter atingido a compulsória, não parou a sua lida e continuou a participar de foros jurídicos e literários. A sociedade, a advocacia, a retórica e o magistério jurídico perderam Luiz Cruz de Vasconcelos, um homem de caráter, pois, no dizer de Schopenhauer: “as causas não determinam o caráter da pessoa, mas a manifestação desse caráter, ou seja, as ações”.
João Soares Neto,
Escrito
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/07/2011.

