“Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e ao corpo. As melhores digestões de minha vida são as de jantares em que sou brindado”. Machado de Assis
Na posse do romancista Antônio Torres, em sessão solene na Academia Brasileira de Letras – ABL deparei-me com o diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet, de fardão. Do meu jeito irreverente, disse: ”Estarei cumprimentando o acadêmico ou a lei? ” Explico, Rouanet foi o mentor da lei de renúncia fiscal, à época do governo Collor. Sem perder a fleuma, que em anos de Itamaraty lhe foi incutida, respondeu: ”Com os dois”. Rimos.
Agora, Rouanet como Coordenador- Irene Moutinho e Silvia Eleutério, como pesquisadoras -, deu a lume o quinto volume da correspondência de Machado de Assis – 1905-1908, edição da própria ABL, objeto de ensaio-reportagem de Luís Antônio Giron, no caderno Eu&Fim de Semana, jornal Valor.
Pode-se depreender do lido que a ideia é retirar de Machado (1839-1908) a pecha de rabugento ou casmurro. Seria ele “O Dom Casmurro”. E isso é feito com maestria ao se trazer ao hoje trechos de correspondências passivas, cartas recebidas, e ativas, as que escrevia.
A eleição de José da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, por Machado, logo em 1898, mostra que este queria dar à ABL uma dimensão simpática e compassiva de “instrumento de política externa”, ao olhar de Rouanet.
Não é supérfluo repetir que Machado sofria de epilepsia- que ele chamava de vertigem-, de lapsos de memória, de depressão e, ao final da vida, de câncer intestinal. Apesar disso tudo, conseguiu ao longo dos seus 69 anos, escrever nove romances, cinco livros de poemas, nove peças de teatro, duas centenas de contos e cerca de 600 crônicas.
É apropriado lembrar que não havia computador, não se socorria do Google, tampouco ele era bafejado pela sorte que tenho ao consultar o que Giron escreveu. Era ele, o seu cabedal linguístico e a sua imaginação. Machado, antes de qualquer publicação, mostrava seus textos à sua mulher, a portuguesa Carolina Novais (1835-1904) e, por carta, ao irmão dela, o cunhado, Miguel de Novais.
A propósito, Roaunet informa a Giron: “espero viver para pôr a mão nessas cartas. Imagine o tempo que essas cartas levavam do Brasil a Portugal e vice-versa”. Os três autores deixam claro que a falsa impressão de “casmurro” cai por terra na leitura da correspondência, mostrando as suas fragilidades e humanidade. Todos sabem que Machado foi amigo chegado de José de Alencar (1829-1877) tendo, inclusive, o escolhido como patrono da sua cadeira na ABL. E essa amizade, após a morte do autor de Iracema, transferiu-se para o poeta Mário de Alencar, filho deste. Tanto é verdade que Mário, aos 36 anos, já integrava a ABL. Machado e Mário tinham também em comum a epilepsia.
Parece-me que a ideia central dessa obra, agora editada pela Academia, além da publicação de cartas trocadas com autores como Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Oliveira Lima, Mário de Alencar e outros, é desmitificar a decantada casmurrice e quiçá isolamento de Machado, motivado por seus males físicos, mas fazê-lo emergir como Aires, personagem leve e central do seu último livro, Memorial de Aires.
Machado ficou viúvo de Carolina em 1904. Após período depressivo, voltou a escrever e a receber cartas dos amigos. Uma dessas cartas, escrita por José Veríssimo, em 18 de julho de 1908, meses antes da morte de Machado, colabora com a ideia de Rouanet de que o mito do dom Casmurro é substituído pelo leve e apaixonado personagem Aires.
Um trecho de Veríssimo, citado por Giron, diz: “Você já nos tinha acostumado às suas deliciosas figuras de mulher, mas creia-me, excedeu-se em dona Carmo. Ah! Como é verdadeira que a grande arte não dispensa a colaboração do coração”.
Depreende-se, repito, Aires seria o próprio Machado e dona Carmo não seria outra senão a pranteada Carolina. Por fim, louvo essa pesquisa literária e histórica de Roaunet, Moutinho e Eleutério, tão bem sumariada por Giron. Machado vive e gosta que falem sobre a sua pessoa. Reveja a epígrafe.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/06/2015.

