MAIS MEIOS, MENOS MÉDICOS – Jornal O Estado

Recebi de uma jovem médica, filha de amigos, um desabafo. Transcrevo-o por ver em seu conteúdo o olhar e sentimento dos jovens formados em medicina. De repente, foram considerados “culpados” pelo caos da Saúde Pública. Ela usa uma expressão: “mais meios e não mais médicos”. Leiam:
“Só quem vivencia a realidade do sistema é quem sabe. O povo precisa é de atenção básica, de “mais meios” e não “mais médicos”. Também tive minha experiência na atenção básica. Há dois anos trabalhava numa cidade satélite de Fortaleza, a 31 km da minha casa. Sempre recebi o salário em dia e tinha transporte do centro da cidade até o posto. Não tinha 13o., nem carteira assinada, mas tirava uma semana de folga no fim do ano e um mês de férias não remuneradas. A falta de medicações básicas não era um problema constante e havia suporte do cardiologista e obstetra por meio de contratransferência.
Foi lá que recebi meu primeiro presente de paciente (um saco de mangas), conheci muita gente humilde e decente, fiz meu primeiro atestado de óbito e a primeira denúncia de violência sexual infantil que foi investigada. Aprendi muito com aquela população, desde o manejo de doenças crônicas até a convivência com pessoas em diversos tipos de sofrimento.
Entretanto, a demanda era enorme: havia duas vezes mais famílias que o preconizado pelo Ministério da Saúde para abrangência de uma unidade do PSF. O resultado era muita gente desassistida e fila a partir das 3 da manhã para conseguir “ficha” para um serviço que deveria ser de demanda livre. Foi lá também que sofri a primeira (e única até hoje) agressão física de um paciente. Havia um projeto há mais de cinco anos de divisão da área e construção de mais um posto, mas sem resposta da prefeitura. As agressões verbais recebidas eram diárias, a sensação de impotência frequente, e as reclamações na Secretaria de Saúde em vão.
Após seis meses, solicitei transferência para uma unidade com número de famílias adequado. Lá tinha tempo de fazer registros em prontuário, orientar o uso correto de medicações e conhecer um pouco da história de vida daquelas pessoas. Fiz pré natal e acompanhei os bebês após o parto, compensei todos os hipertensos e diabéticos que foi possível, realizava visitas domiciliares aos acamados com regularidade.
Mas o meu trabalho tinha um limite… Muitos pacientes retornavam com as mesmas queixas porque não conseguiam consultas com especialistas, acompanhamento com outros profissionais (fisioterapeuta, psicólogo…) ou realização de exames como TSH e urino cultura. Outros não melhoravam por falta de suporte social ou impossibilidade de mudança nos hábitos de vida devido à pobreza. Chegou um ponto em que eu senti que já tinha feito o possível por aquela população, e a sensação de impotência foi batendo de novo…
Comecei a pensar se valeria a pena continuar lutando em um sistema que me dava suporte, mas ainda insuficiente. Escolhi outro rumo para a minha vida e hoje vivencio problemas semelhantes em um hospital terciário do SUS, em Salvador.
Não exerci Medicina no interior, mas quando falam da vinda de médicos estrangeiros eu me pergunto se eles vão ter 10% da estrutura que eu tinha próximo de Fortaleza. Como irão fazer pré-natal sem exames de rotina? Como farão o acompanhamento de portadores de doenças crônicas sem remédios? Como tratarão as diarréias sem saneamento básico? Como falarão sobre tratamento não farmacológico sem a ajuda de uma equipe multidisciplinar? Lívia.”
Agora, falo eu: O depoimento da médica Lívia não difere muito dos já circulantes na Internet. A diferença é que conheço os seus pais, Vinícius e Zarely. Sei dos seus esforços para formar dois filhos em medicina. Do zelo, da compra do primeiro carrinho 1.000 e da saudade que dá por Lívia morar sozinha, trabalhando em Salvador. Assim é a vida dos jovens médicos. Eles pedem mais meios para o seu trabalho. Não reclamam da vocação, pedem ajuda para ter instrumental e os equipamentos básicos para diagnósticos.
Enquanto isso, as grandes cidades são invadidas por ambulâncias vindas do interior, aos solavancos, nas estradas esburacadas. As ambulâncias do SUS duram apenas três anos. Faltam manutenção e cuidados. Há milhares sucateadas. Os que as dirigem e os paramédicos são terceirizados, quase sempre. Por serem terceirizados não têm compromisso com o que usam e fazem. E essas empresas que terceirizam são, quase sempre, de políticos ou de seus amigos.
Entretanto, não culpemos apenas os governos, os políticos e os profissionais. A imprensa não deve ser silente e o voto não pode ser descompromissado. Esse cadinho origina a maior doença endógena do Brasil: a corrupção. Ela é cozinhada por ditos grandes empresários inescrupulosos mancomunados com todos os que estão no poder, sejam eles quem for. Só há corruptos porque sofrem assédios de corruptores acenando-lhe com o que seduz o ser humano, não apenas o dinheiro. Esses corruptores precisam ser identificados e punidos, pois alguns se aninham em entidades endinheiradas, outros têm amigos poderosos, uns tantos possuem mandatos e todos são sempre “educados, articulados e dadivosos”.
Não precisam poupar, obtém financiamentos, pedem concordatas, renegociam dívidas, fazem consórcios, obtém concessões, articulam e promiscuem gente incauta. As cornucópias públicas jorram dinheiro para as suas empresas, pois nunca recebem precatórios. São especializadas em tudo, obras e serviços cujas placas e valores raramente contêm os seus reais nomes, os preços das contratações e dos aditivos. Trabalham em bloco e são as mesmas, as de sempre. Brasil afora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/07/2013.

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