MANHÃ HIPOTÉTICA – Diário do Nordeste

Na segunda-feira acordou estremunhada, cansada e sem graça. Como? Havia ganhado a eleição mais difícil depois da democratização. A roupa branca usada para o pronunciamento à nação amarfanhada sobre o sofá do quarto do palácio desenhado pelo arquiteto famoso. Abriu as cortinas e o sol do final de outubro mostrava a face dourada e forte sobre o planalto. Piscou os olhos.
Sentou-se à cabeceira da cama, calçou os chinelos, e foi em direção ao banheiro. A água fria a cobria e, em meio ao banho, sentiu o líquido quente de lágrimas. Por que estaria chorando se era vitoriosa? Lembrou-se de sua época na prisão, da filha, do neto e da mãe a poucos passos dali. Esfregou os olhos, fechou a torneira e enrolou-se na macia toalha de banho. O espelho mostrava a mulher madura, vencedora de câncer, reeleita, descasada e só. Não havia com quem trocar confidências. Os telefones, disponíveis e sensíveis à escuta, estavam desligados e os frascos dos remédios que tomara ao dormir espalhavam-se pelo lado vazio da cama. As marcas do seu corpo formavam um vinco onde dormira. Não tivera sonhos. O sono pesado a abatera depois do dia mais duro de sua vida.
Repensou. Não fora o mais pesado, sim o mais tenso. Informações alarmantes. O denunciante, ao contrário do exposto, não morrera. Estava atrás do candidato na contagem não divulgada antes das 8 da noite. Depois, houve inversão da posição. Seu coração mostrava arritmia. Discretamente, tomara um comprimido.
Folgaria esta manhã. Estava exausta. Não queria falar com ninguém. Nem com ele. Precisava ficar só.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/11/2014.

Sem categoria