Acabei, faz pouco tempo, de guardar o pesado e amarfanhado casaco que usei no frio da Velha Albion, a terra do contra. Lá, para se andar e atravessar a rua, deve-se olhar ao contrário do que se faz por aqui. E eu, certamente, não tenho esse reflexo. Sinto-me desconfortável e atarantado. Eu devia entender que metade dos carros do mundo está com a direção do lado “errado”, isto é, do lado direito. O problema é que achamos certos os nossos costumes. Não há certo ou errado nessa questão de direção e tampouco nos costumes de cada terra.
No começo da história do automóvel a direção ficava ao meio do painel para o motorista ter uma visão ampla à sua frente. Depois, a direção veio para o lado esquerdo, a fim de bem ultrapassar os veículos que estão à frente e trafegam pelo lado direito da via. Um fato interessante, os retrovisores laterais são invenção bem posterior ao tempo de Henry Ford e seus discípulos.
A turma da Velha Albion, entretanto, costuma ser diferente em quase tudo – os bares fecham parte da tarde, p.ex – tendo adotado o lado direito como o “certo” para a direção do veículo. A ultrapassagem é pela esquerda. Da mesma forma fizeram com a moeda deles. Se algum visitante – e são 30 milhões a cada ano – quiser vá a uma casa de câmbio e troque o real, o dólar ou o euro por “pound”.
Alugar um carro passou a ser uma temeridade para mim, canhoto empedernido, já a enfrentar dificuldades com a habilidade manual, incluindo chaves, portas e maçanetas, imagine com a contramão de direção. Chego e a Baronesa Margaret Thatcher se vai. Creio que ela não pode sequer ver o filme sobre a sua vida. Se o viu, não entendeu nada, pois havia sido atingida pela doença do alemão.
Como diz um velho provérbio, creio que árabe, “Deus não completa nada para ninguém”. Não viu Meryl Streep, igualzinha a ela, na caracterização e no gestual. Representou-a tão bem que ganhou um Oscar de melhor atriz. O filme, de 2011, será reprisado, certamente, pelo menos nos canais fechados. Ele mostra Streep falando e agindo como Thatcher e desvendando, de soslaio, a tênue figura do seu marido, também já no mundo do além.
O enredo não diz, por exemplo, que Margaret ganhou um concurso de poesia aos 10 anos e ao ouvir do professor: parabéns, você teve sorte. Respondeu: Sorte não, eu mereci. Despontava ali, a sua franqueza. A história da película centra na sua ascensão política e social, filha do merceeiro Alfred Roberts, da cidade de Grantham, arredores de Londres. Ela foi estudante de Oxford por mérito pessoal, com bolsa de estudo. Ao casar, assumiu o Thatcher do marido, o empresário Denis, e abandonou o Roberts, do pai Alfred. Chegou, em três eleições consecutivas, a ser premiê da ilha por longos 11 anos, de 1979 a 1990. A única mulher com esse feito.
A Dama de Ferro, The Iron Lady, nome esculpido por um jornalista soviético, era durona, “conservadora”, mas tomou decisões avançadas para a árdua época em que conviveu com quebradeira e greves brabas, tendo conseguido segurar a inflação, ganhar a guerra das Malvinas/Falklands, na verdade, uma aventura suicida da ditadura argentina. Ela viveu, como premiê, os últimos anos da Guerra Fria, quando bilhões foram gastos por vários países com ataques e defesas imaginários e retóricos, e viu o fim da União Soviética(1989). Apenas historio, não julgo.
Enquanto isso, Elizabeth, a longeva, mãe do viúvo desengonçado a gostar de saiote “kilt” escocês e casado com a velha amante, continua dirigindo, quando deixam, o seu Landrover, pela “mão errada”, nas estradas vicinais dos castelos friorentos e plenos de fantasmas. Uma amiga alemã, pedindo reserva, citou a frase do poeta Friedrich Von Hardenberg, dito Novalis, também germânico: “Jeder Engländer ist eine Insel”. Abri o dicionário e aprendi: “Todo inglês é uma ilha”.
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/04/2013.

