MARACATU AZ DE OURO – CULTURA COM ARTE – Jornal O Estado

O BenficArte, espaço cultural localizado na esquina das avenidas Carapinima e 13 de maio, apoia há anos manifestações pré-carnavalescas, especialmente as dos maracatus cearenses. Durante este período pré-carnavalesco homenageia com uma exposição, os 74 anos do Maracatu Az(com z) de Ouro. Entende o BenficArte ser preciso que os mais jovens conheçam a razão, a essência e o porquê de pessoas de todas as idades e raças que, por decisão própria e volúpia, metamorfoseiam-se em nigérrimos, colocando roupas singulares com adereços característicos da África e encarnam, em épocas carnavalescas, nativos daquele continente. Eles chegam dançando sincopadamente, como se contassem e cantassem a história e a tristeza da suas capturas na África que começaram na Idade Média, séculos antes dos navios negreiros que os trouxeram como força de trabalho para o Brasil e outros países do continente americano, após suas descobertas. Vão, em seguida, fazendo evoluções como lamentos em “cordões” múltiplos, antecedidos por um porta-estandarte iluminado por lampiões levados por guias e um excêntrico baliza. E o mais singular é que para coroar a festa surge gloriosa uma “rainha” que embute em seus gracejos a força de um homem. E ainda, como uma forma peculiar de miscigenação, há as figuras dos índios, os nativos das terras para onde foram trazidos. Creia, isso é cultura popular cearense e resgata bem o que muitos plantaram e apoiam há décadas. Dentre eles, Descartes Gadelha, Calé Alencar, Paulo Tadeu, Pingo de Fortaleza e, especialmente, o não esquecido Raimundo Alves Feitosa, o fundador do Az de Ouro que o criou, em 1936, no tempo em que Fortaleza era pacata e o corso carnavalesco acontecia nas ruas 24 de Maio e Senador Pompeu e na Av. Duque de Caxias. Eles, os integrantes do Az de Ouro, vem do Jardim América, bairro limítrofe com o Benfica, mostrando agora, no Benficarte, vis a vis com os visitantes da rica e mimosa exposição, sob as bênçãos de todos os deuses negros, a sua história permeada das cores amarela, vermelha e preta que formam a sua identidade e tecem a sua memória em fotos, fantasias e estandartes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/02/2010.

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