MARCELA – Diário do Nordeste

A noite findara o seu turno e não queria ir embora, esperava por você. As rendas de chuva fina duelavam com a tímida lucidez do sol até seus raios vencerem o duelo espacial para refulgir em sua face, chegando como alvíssaras. Você veio do recôncavo do amor para a plenitude da vida neste 05 de maio, dia consagrado, logo a quem, a Santo Ângelo, também protetor onomástico de sua irmã e avó. E sabe como Ângelo tornou-se santo? Pelo anúncio sagrado de que ele, Ângelo, teria um novo irmão, embora seus pais achassem impossível. Mas, aconteceu. E sabe qual foi o nome dado ao irmão de Ângelo? João. Engraçado, não. Você compreenderá, um dia. Somos todos irmãos, embora nomeados disso ou daquilo. A sua chegada, para mim, é a mais pura encarnação de amor e se sorrisse, gritasse ou sussurrasse ninguém iria entender o gesto. E por ser de pouca reza, apelei para um aquietado Pai Nosso, a oração de amigos, companheiros, filhos, pais e netos, na certeza de que somos grãos de areia na ampulheta do viver. Ainda que juntos, temos átomos a nos dividir e a desfalcar o amor. Não há como parar o tempo, vilão eterno a corroer partes do ser. O saque é mínimo quando se é como você, querida Marcela e o tempo soa infinito. Mas, para os que colheram muitos anos, intuem que seja finito. Tudo errado. O tempo é apenas definitivo. E você nasce para embalar o aconchego do amor, este o único liame a nos fazer eternos. Mesmo incompreendida, nunca deixe de amar, essa força única e ampla a nos tornar plenos. E se lhe digo isso no dia de sua entrada no mundo é porque outra pessoa nascida há 190 anos, neste mesmo 05 de maio, um filósofo, Karl Marx, escreveu que “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Seja, pois, líquida, fluida, etérea e sublime no amor que venha a dar às pessoas, a partir de seus pais, irmã, primos, tios, avós e bisavó. Daí, lute e viva. Conte comigo, mesmo nascido noutro século, espero ainda ver muitas luas e sóis. Testemunhar que você, Marcela, tal qual um martelo, transforme as pedras de sua vida em estrada, ainda que singela, onde possa transitar com esperança, modéstia, confiança, trabalho, dignidade, energia e amor ao próximo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2008.

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