MARCELO LINHARES – Jornal O Estado

Marcelo Caracas Linhares, bancário, advogado, deputado federal por quatro legislaturas, intelectual, historiador e, sobretudo, homem de bem, viajou para o eterno na terça, dia 14. Há muito o seu coração fraquejava. Vi-o, minutos antes da derradeira missa, após cumprimentar sua mulher, Irismar. Ele estava ele. A doença não lhe tirara os traços fidalgos e o jeito sereno de ser. Ano passado, dentro de um projeto ainda em curso, o entrevistei. Conversei com ele, amigos que éramos e colegas da Academia Fortalezense de Letras, e pedi-lhe para responder a 40 perguntas. Ele o fez, gentilmente. Aproveito, partes de suas respostas, e ele mesmo escreverá esta crônica. Paro aqui, agora é ele.
“Nos meus oitenta anos nunca imaginei responder perguntas sobre mim mesmo. Lembro-me sempre que a um Lorde inglês indagaram como havia chegado tão rápido àquela posição, eis que só tinha cinquenta anos. A resposta foi: ‘falando muito das coisas, pouco das pessoas e nada sobre mim mesmo’. A minha infância foi vivida em Guaramiranga, sozinho. Daí a influência na minha personalidade ser muito de minha família. Por outro lado, creio ser um pouco autodidata eis que tenho a impressão de haver feito o pior curso de direito de um aluno da Faculdade de Direito do Ceará. Parte dele estava no Crato e parte em Quixadá, vindo a Fortaleza fazer as provas. Deu-me muito trabalho recuperar, com novos estudos, o que deixei de fazer durante o curso. Na época em que entrei no Banco do Brasil, essa era uma das carreiras mais cobiçadas da mocidade de então. Ocorre que fui transferido para o Crato e depois para Quixadá. Mesmo assim, não me arrependo de haver nele ingressado. Fui aposentado, na última letra da carreira de advogado. Na realidade, fui um felizardo.
Não sei o que teria sido de mim sem a âncora que encontrei, Irismar. Se você verificar em todos os livros que escrevi – e são oito até agora – sem contar com aqueles de menos de 50 páginas que não se mantêm em pé, os oferecimentos são a ela. Nos momentos de maiores dificuldades, inclusive na vida política, foi ela que me ajudou a delas sair. Deus foi pródigo comigo pondo-a no meu caminho. Logo que nos casamos, filhos era uma meta. Depois, com o passar dos tempos, fomos vendo – Irismar e eu – os dramas que muitos amigos passavam com os seus descendentes. Hoje vemos que Deus, mais uma vez, nos abençoou. Fora o meu casamento, a coisa melhor que fiz na vida foi ser deputado federal. Preciso dizer nunca haver sido derrotado. Cada eleição obtinha mais votos que a anterior.
Só a fé nos conduz no reto cumprimento do dever. Nunca duvidei, graças a Deus, e minha fé continua inabalável”. Marcelo.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2007.

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