MARGARIDA, 91

“Agora, pois, filhos, ouvi-me/bem aventurados os que guardam os meus caminhos/Ouvi as minhas instruções, e sede sábios, /e não queirais rejeitá-las”. Provérbio, 8:32
Dona Margarida completa noventa e um anos amanhã. Tentei, de todas as formas, mandar confeccionar um bolo com 91 metros de comprimento. Não consegui. Não dava para ser transportado e não havia ambiente, tampouco balcão disponível que comportasse essa guloseima gigante. De qualquer modo, juntei ingredientes vindos das barrancas do meu coração, untei-os com o liame a nos unir e com uma colher de pau gigantesca fiz nascer esse bolo enorme, cheiroso, confeitado, saboroso como o amor e caseiro.
Esse bolo virtual/real terá apenas duas velas. Uma, simbolizará a nona década de sua vida e, outra, o numeral um, a dizer que ela está iniciando a trilha para o seu centenário. Ele será compartilhado por irmãos, filhos, netos, bisnetos e por pessoas amigas que, certamente, ficarão alegres em louvar a vida dessa mulher de fibra, chefe de família exemplar, irmã querida, mãe vigilante, avó crítica e dona de sensatez profunda. Haverá bênção e todos, contritos, mesmo sendo pecadores, agradecerão a descendência que lhes coube na árvore dessa bonita mulher baobá, filha do farmacêutico João Caminha Monteiro e de D. Luiza Saraiva Caminha, educada no Colégio da Imaculada Conceição. Seu pai, João, morreu cedo, deixando uma grande, honrada e sacrificada família em face das despesas de sua longa enfermidade.
Sua mãe, Luiza, ainda restou grávida do 12º. filho, mas conduziu com dignidade o desígnio que lhe coube. O fato é que dessa tribo eu sai curumim e aprendi que a nossa oca tem fraternidade, olho no olho, decisão de chegar junto no momento preciso. À Dona Margarida, viúva há quase duas décadas, dorida e ciosa de sua casa, cabelo de algodão doce, resposta lúcida e pronta a qualquer questão, mesa posta como se fora uma tasca de estrada, o amor e carinho de seus nove filhos, adultos, independentes e capazes, aqui e alhures. O respeito de netos sem conta, médica, advogados, administradores, arquiteto, psicóloga e que tais e, de bisnetos que, se não levam mais seu sobrenome, têm, sem que o saibam, o indulto da genética a repatriá-los e a cobri-los, não com mimos, mas com o exemplo traduzido em sentido de vida, da aurora ao arrebol, a inocular a todos dignidade e temperança. Saiba, Dona Margarida, que agradecemos por sua lida e louvamos sua vida. Como filhos adultos, estamos e estaremos, agora e sempre, a seu lado, na sua casa com jardim e quintal sombreados por árvores frutíferas, na varanda de tantas conversas sem fim, nas cadeiras que não têm donos, pois somos iguais quando nelas sentamos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/10/2010.

Sem categoria