Hoje, você, e os filhos que tiver, estarão mais velhos que ontem. Amanhã, seus netos – se os tiver – e você terão gastos 24 horas de suas vidas. Não há como parar o tempo, ampulheta eterna a surrupiar parte, mínima ou grande, de nossas existências. O furto é insignificante quando jovens e acreditamos ser o tempo infinito. Não o é. É grande quando amadurecemos e pensamos ser o tempo finito. Também não o é. O tempo é apenas definitivo. Nós somos finitos. Quanto tempo se perde em querer que o outro use a sua vida e experiências, a praticar o que achamos certo? Quem somos para saber do outro? Cada pessoa tem rotação própria e o seu caleidoscópio quase nunca entra em compasso com a nosso. Hoje, você e os seus talvez estejam longínquos. Amanhã, você e eles estarão ocupados com o fazer do dia-a-dia a construir. Todos poderiam estar conectados – embora separados – tecendo um tempo comum, mas… Mas, os filhos não são apenas aqueles que criamos. Eles são o que vivem após deixarem o casulo em que tentamos, por amor ou egoísmo, pajeá-los. Assim, passam a ser pais e têm filhos que nos veem como os pais de seus pais. Esses netos gastam o seu tempo como desejam e nele quase não há quadra para os avós, pois percebem, em suas sabedorias intuitivas, o outono vivenciado como prenúncio de despedida, da qual querem distância. O fuso dessa estação da vida vai gotejando, tecendo ilhéus na solidão não compartilhada. Essa consciência não deve alarmar, mas reavivar anseios intensos para arrasar as debilidades que as situações da vida permitem. No torvelinho desse balanço há de sobrar tempo para o aconchego, o liame a nos fazer próximos e íntimos. Esse tempo da maturidade não é o fim da sexualidade, mas a quadra da busca do entendimento, pois diferenças e desejos pessoais são insanáveis, a partir de valores que nos tornam distintos, singulares. E aí realça a importância do companheirismo, sem o qual seremos ilhas de razão, inacessíveis aos que não falam a nossa linguagem ou não usam a nossa bússola. Platitudes? Talvez.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/09/2009.

