MAUÁ E UNIFOR – Diário do Nordeste

Com o zelo, a plasticidade e a classe costumeira, a Universidade de Fortaleza, com o apoio da Braspetro, está apresentando exposição sobre Irineu Evangelista de Souza, o empreendedor do século XIX, quando essa palavra ainda não existia. Sou fã dos empreendedores que aliam seu trabalho à criação diferenciada para a humanidade. Assim é que descobri há muito Monteiro Lobato, não apenas o grande escritor, mas o nacionalista e sofrido empresário, que até preso foi pela ditadura. Seu livro, “A Barca de Gleyre”, é o meu preferido. Ele previu até em “O presidente negro”, a eleição de um negro nos EUA, isso na década de 30. Voltando ao fio, a própria UNIFOR é fruto de um visionário. Edson Queiroz criou, do zero, uma universidade diferenciada que irrompeu com um magnífico campus, simplicidade, paisagismo exuberante, estratégia acadêmica, gestão eficaz e alcançou o reconhecimento público. A dedicação do Chanceler Airton Queiroz alia ao seu “hardcore” de ensino o declarado amor às artes e fez brotar ali um teatro com diferencial de qualidade pela escolha de peças, autores e atores de nível. Cuida de cada detalhe das exposições. Elas primam pela gentileza cultural e ambiental dando ao visitante uma aula preliminar até que se depare com a arte exposta. Agora, com a exposição sobre Mauá alia a arte a um necessário mergulho sobre a história brasileira do Século XIX e a empreitadas difíceis e díspares como a implantação de uma indústria naval; a criação de ferrovias; a navegação pela Amazônia; a iluminação à gás do Rio, sede do Império; a atividade agropecuária e empréstimos ao Uruguai. Até a pá entregue a D. Pedro II para um ato público tem a marca da ousadia privada. Mauá teve altos e baixos, como todo sonhador com o pé no chão e a cabeça no futuro. Conseguiu inovar até na contratação de técnicos e mão de obra da Europa e da China, quando só se usava escravos. Mauá é também a história financeira nacional quando da criação, subscrição e ingerência oculta nas ações do Banco do Brasil. Ele é, enfim, a lição de que o trabalho inovador, como obra de arte, também faz História.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/11/2008.

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