MÉDICO, AMANHÃ – Jornal O Estado

Bem que meu pai tentou, mas, teimosamente, não segui seu conselho. Não fiz vestibular para medicina, mas sempre admirei essa profissão que começa com a Anatomia e não tem fim. Dizia W. Whitman, poeta americano dos bons, “se existe alguma coisa sagrada, esta é o corpo humano”. O corpo humano é o templo dos médicos. É nele que vão descobrindo a alma do paciente, ouvindo suas queixas, conhecendo-lhe os cinco sentidos, interpretando-lhe os exames e curando-lhe os males. Nesta já não tão breve vida, conheci de perto e me tornei amigo de muitos médicos, homens e mulheres. O que mais me cativa nessa profissão é a capacidade que cada um tem de administrar sua vida, enquanto outras vidas dependem do que leram, mourejaram em plantões, hospitais mambembes, residências, especializações, mestrados e até doutorados. Não é fácil ser oftalmologista e dizer a alguém que ele vai ficar cego. Tampouco, como fica um anestesiologista ao defrontar com um acidente de choque anafilático? E o hematologista ao descobrir, entre lâminas e microscópios, a leucemia que, quase sempre, ceifa vidas? E o oncologista que não gosta de falar a palavra câncer, mas sabe que precisa ser honesto e objetivo em seus diagnósticos? Como fica um nefrologista vendo um ser sendo destruído pela ingestão diária de álcool? E o pediatra que escuta o choro do bebê que não pode dizer o que sente? E o pneumologista que tenta fazer com que seus pacientes e a humanidade parem de fumar e poupem seus pulmões? E o radiologista que lê os nossos ossos e músculos? E o que dizer do cirurgião, entre sangue, artérias e músculos, a limpar o campo para o seu trabalho árduo de extirpar ou remendar? E o psiquiatra que cuida da alma, mas vê o corpo como resposta a perguntas que não pode fazer ao paciente. Há tanta grandeza no trabalho dessas pessoas que se dividem em empregos para procurar ter a dignidade que o juramento feito por Hipócrates lhes cobra. Amanhã é o Dia do Médico, essa criatura que não tem hora, tampouco dia, para o não fazer nada, pois o corre-corre do mundo e das pessoas a faz sempre necessária para o nosso bem-estar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/10/2008.

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