Há quase 400 anos William Shakespeare se valia do personagem Helena, na peça “Bem está o que bem acaba”, para dizer no primeiro ato: “Às vezes está em nós a medicina que em vão ao céu pedimos”. Nós, não médicos, muitas vezes pensamos que o médico é um ser milagroso. Paradoxalmente, alguns médicos se deixam levar por essa mesma ideia. Todos estão errados.
As relações entre pacientes e médicos não são relações comuns, pois plasmadas, de um lado, por dependência e, não raro, um ar de enfado, mesmo disfarçado por boas maneiras, do outro. Muitas respostas pedidas não podem ser dadas, mesmo após uma anamnese (o relato dos padecimentos, segundo Miguel Torga, médico e escritor português) bem-feita ou uma bateria de exames laboratoriais ou de imagem. Há muito de não explicado, até pelos médicos que cuidam das mentes das pessoas. O médico não é apenas um elemento importante na engrenagem das respostas dadas pelo nosso corpo às dores, sejam elas reais ou imaginárias. Ele é o fio condutor do processo.
É provável estar com Platão a resposta: “O maior erro dos médicos é tentar curar o corpo sem procurar curar a alma. Entretanto, corpo e alma são um e não podem ser tratados separadamente. “Um médico e escritor, Moacyr Scliar, parece concordar com Platão quando diz no livro “A Paixão Transformada”: “A situação mudou por várias razões: em primeiro lugar, o médico perdeu a posição aristocrática que muitas vezes o caracterizava no passado. Depois, a medicina foi adquirindo um caráter mais técnico, pouco compatível com a expressão humanista”.
O outro lado da história é quando se fala em qualidade de vida dos médicos. É lúcido concluir necessitar o médico de um mínimo de condições de vida para ser uma pessoa razoavelmente feliz e, conseqüentemente, ter gosto pelo que faz. Por ter alguns amigos médicos posso me permitir fazer estar observações. Sei como são responsáveis, trabalhadores, estressados, ganhando relativamente pouco, tão carentes de afeto quanto seus pacientes, mas têm, por ofício, de tomar decisões rápidas que podem salvar ou não vidas ou não. Essa rotina não os robotiza, mas pode lhes dar aquele ar de enfado já referido.
Pode ser até exagero ou inadequada a expressão enfado. Melhor seria, quem sasbe, incômodo, pela quase real incapacidade de estabelecer um diálogo racional com o paciente. Enquanto o médico procura em seus alfarrábios mentais e na farmacologia o cutelo para ceifar a doença, o paciente – e sua família – quer respostas, sejam mágicas ou milagrosas.
Talvez pudesse ser inferido, com relativa margem de erro, que os médicos ao não se sensibilizarem com os dramas dos doentes possam, em contrapartida, maximizar os seus e de familiares, tornando-se frágeis para resistir às suas próprias dores.
A reportagem sensacionalista da revista Veja da semana passada sobre o uso de álcool e drogas por médicos, reflete um percentual significativo. o mesmo escrito sobre médicos pode ser dito de jornalistas, políticos, empresários etc. Por outro lado, a atual situação social-econômico-financeira dos profissionais da medicina parece ser crítica, mas não sei da existência de pesquisas e estudos sobre tal fato e, especialmente, a respeito da saúde física e mental dos médicos. Se há, gostaria de conhecer. Não existindo, é tempo de fazer. Poderiam ser úteis aos conselhos regionais de medicina e aos sindicatos dos médicos. Forneceriam elementos para reflexões e reivindicações importantes para o exercício digno dessa profissão que alia ciência e arte.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2000.

