MENINOS E O “EL NIÑO” – Diário do Nordeste

Quem, brasileiro, não há remoído sobre o que nos aconteceu nos últimos dias? Quem não foi abordado sobre palpites, legados e, pouco a pouco, viu a euforia coletiva, quase histeria, e o “imprevisto” desapontamento, arquivar o bom humor e fazer-se crítico de tudo e de todos?
Desafio a qualquer brasileiro, salvo os cronistas esportivos, para citar todos os clubes onde atuam no exterior os atletas da seleção. De heróis a meninos chorões atarantados, não veem mais a bola como objeto lúdico, mas como afirmação de elevados salários, premiações e privilégios. Extra pauta: houve até o caso patético de seleção africana querendo receber, em “dinheiro”, o acertado. Um jato chega e a sanha se extingue.
O endeusamento de Neymar Jr., ilustrando a existência do Neymar, o pai, seu empresário, passa do censo comum. O seu namoro com jovem artista de televisão vira conto de fadas com fofocas. Por outro lado, não li qual seria o valor da premiação de cada atleta.
Além disso, como mercadoria (ou commodities, na linguagem econômica), eles vivem numa bolsa de valores, oscilando em múltiplos contratos por desempenhos. A ida de Neymar para o jogo, no banco, contra a Holanda não seria apenas para solidarizar-se com os companheiros, mas, quiçá, sugerir que não participava do colapso.
A seleção não conseguiu sequer jogar no “novo” Maracanã, onde a honra perdida em 1950 seria lavada e todos sairiam alegres para este fim de ano, com o “El Niño” a ameaçar com estiagem em 2015 no Nordeste, cem anos depois da seca que colocou a jovem Rachel de Queiroz na literatura brasileira.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2014.

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