MESTIÇAGEM E FUENTES – Diário do Nordeste

A 8ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará usa como tema a Aventura Cultural da Mestiçagem, tal a força do convencimento vivenciado em suas andanças latino-americanas por Floriano Martins, curador geral e, pelo suporte recebido de Jorge Pieiro e Karine David, curadores, todos chancelados por Auto Filho, Secretário de Cultura. É provável que alguns intelectuais ainda não tenham atentado para a sutileza da iniciativa que procura introduzir o Ceará e Fortaleza no imaginário dos autores latinos que nos visitam e no mapa cultural dos países de língua hispânica. É importante lembrar também que nesta terça, dia 11, o maior escritor mexicano vivo, Carlos Fuentes, completou 80 anos. Ele está sendo alvo de manifestações culturais em todo o México. Não é oba-oba, mas uma sucessão de cursos, palestras, debates e seminários em que intelectuais latinos e de todo o mundo discutem o fazer literário de Fuentes e a sua cognição com o real e o fantástico, ao mesmo tempo em que se debruçam em temas sutis como as artes de narrar, fazer romance, filosofar, historiar, escrever ensaios, informar, editar, ler, olhar e filmar. O engraçado na vida de Fuentes é que, tal qual John McCain, o derrotado candidato à Presidência dos EUA, ele também nasceu no Panamá, onde os seus pais, mexicanos, exerciam a diplomacia. Fuentes também perdeu – misteriosamente – agora a sua quase certa indicação ao Prêmio Nobel de Literatura deste ano para o pouco conhecido escritor francês Le Clézio. As semelhanças param por aí. Fuentes acompanhou seus pais pelo mundo afora e passa a ser poliglota, criando uma percepção universal, sem perder a essência de sua mexicanidade que até foi criticada no lançamento de sua primeira obra “A região não transparente”. Agora, cinquenta anos depois, ela é relançada em edição Premium pela Associação das Academias de Língua Espanhola com a mesma pompa de um “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, e de “Cem Anos de Sólida”, de Gabriel García Márquez. Sempre é bom lembrar, como queria Goethe, que quem não conhece línguas – e terras, digo eu – estrangeiras, não pode saber muito da sua.

João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/11/2008.

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