O México, como o Brasil, é um país derramado em prosa e verso, vive da palavra, especialmente a de Octávio Paz: “a palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade”. O México é também um país fustigado por lutas e guerras, mas teima em viver em paz. Agora, está travando uma luta desmedida contra o narcotráfico. Sua posição na América do Norte onde faz larga fronteira com os Estados Unidos o abençoa e maldiz. A frase: “México: tão longe de Deus e tão perto do demônio” é atribuída ao ex-presidente Porfírio Díaz. Pois é.
O demônio de hoje é a droga vinda da América do Sul que por lá trafega em direção aos Estados Unidos. Sua bandeira tricolor em verde, vermelho e branco com uma águia devorando uma serpente, simboliza Cuauhtémoc, um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria asteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes”. Neste 16 de setembro o México comemora o início de duas lutas, o do Bicentenário da Independência Nacional (1810) e cem anos da Revolução Mexicana (1910).
São momentos distintos no maior país de língua hispânica das Américas. A Independência mexicana levou quase onze anos para se tornar concreta, a partir do Grito de Dolores, em 1810, episódio comandado pelo padre Miguel Hidalgo, até 1821, com Agustín de Iturbide. A Revolução, surgida em novembro de 1910, cobrava o fim da oligarquia reinante e pretendia ser socialista. Sua grande figura foi Francisco Madero, sem esquecer de Emiliano Zapata e Pancho Villa.
O grande feito da Revolução Mexicana foi a Constituição de 1917 que eliminou a reeleição presidencial e deu ao país uma diretriz para o futuro. Frida Kahlo, pintora – mulher do também pintor e muralista Diego Rivera – foi uma das figuras emblemáticas do processo pós-revolucionário por ter se engajado, na juventude, no Partido Comunista. Frida, segundo consta, foi amante do intelectual russo e marxista LeonTrótsky, que morreu assassinado no México, onde se exilara, em 21 de agosto de 1940, pelo espanhol Ramón Mercader, a mando do Chefe de Estado da URSS, Joseph Stalin, de quem era adversário.
Nesta semana do Bicentenário, o Consulado Honorário do México no Ceará tem orgulho de mostrar em Exposição, que vai até o dia 24, na Galeria Benficarte, no Shopping Benfica, um pouco da História desse grande país, com 110 milhões de habitantes que, entre outras grandes conquistas e honrarias, possui dois prêmios nobéis. O primeiro, o da Paz, concedido ao diplomata Alfonso García Robles, em 1982. O segundo, o de Literatura, ao escritor Octávio Paz, em 1990. São duzentos anos de construção de uma identidade nacional. Bravo México.
* João Soares Neto é Cônsul Honorário do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/09/2010.

