MÉXICO – Jornal O Estado

Na reunião havida na semana passada, em Davos, na Suíça, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calderón, do México, por terem discordado de aspectos político-institucionais de alguns países latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abraço, como a dizer: somos diferentes, mas somos irmãos. Isso é verdade, acreditem.
O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana, graças aos aztecas e à sua cultura. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso.
O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é a questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar?
A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida.
Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem brasileiro que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim, as pessoas têm coração e atitude. Nós, também.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/02/2007.

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