MICROCONTOS A PEDIDOS

Alguns benevolentes leitores me pedem – e eu atendo – para publicar mais microcontos, Para os que ainda não leram, explico. Os microcontos: são curtíssimos, ilógicos, tem começo e fim. Espero que agradem:
MC 01
Viu o monstro. Não teve medo. Era sua imagem refletida no espelho.
MC 02
Recebera um beijo, não sabia de quem. Estava no necrotério. Ficou.
MC 03
Na suite principal do Kremlin viu um vulto barbado (seria Marx?) deitado a seu lado e sentiu um calafrio. Uma alma? Não poderia ser, comunista não acredita nisso.
MC 04
Policial e bandido estavam mortos. De mãos dadas, um segurando o revólver do outro.
MC 05
Ajeitou a gravata, entrou solene e foi preso. Estava nu.
MC 06
Acordara do sonho. Tivera a mulher desejada em seus braços. Virou para o lado e sua companheira roncava.
MC 07
Feriadão. Preguiça muita e mulher pouca. Alô, é do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos à CUT, estamos em greve.
MC 08
Copenhague, outono, fim de tarde. Saiu do Tívoli Park à pé rumo ao centro. Não viu a jovem na bicicleta. Hoje, manca um pouco, mas é um adepto do ciclismo.
MC 09
Reprovada até ontem. Hoje, a aluna provocante passara na prova. Que prova.
MC 10
Quanto mais orava, mais pecava. Pedia a Deus coragem mas continuava com aquela pessoa que não lhe dizia nada. Seus corpos estavam nus e sós.
MC 11
Enxugou-se na toalha rala do motel e cantarolou. Estava feliz. Sua mulher descobrira agora que ele era impotente também fora de casa.
MC 12
Vontade incontida de chorar. As lágrimas saiam aos borbotões. Qual a razão? Não sabia. Saiu do velório e recebeu pêsames pela morte do marido.
MC 13
No curso da invasão de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao chão, o rifle tombou e ela tomou posse dele.
MC 14
O Juiz leu a sentença e deu um telefonema. Queria almoçar com a ré, que recusou.
MC 15
O gerente do banco foi solícito. Cheque especial na mão, comprou a passagem que a libertaria. Fez um bilhete agradecendo ao gerente e devolveu os cheques não usados.
MC 16
Tinha consciência de suas limitações e isso lhe machucava. Abriu o sorriso e continuou a fingir.
MC 17
A mulher ligou para a polícia, tirou um cigarro do bolso dele, acendeu, deu uma longa tragada até formar cinza e despejou sobre o corpo do seu homem, morto. Cansara de apanhar.
MC 18
Tirou a barba postiça com cuidado e a roupa vermelha de papai noel. Dormiu e sonhou chorando pedindo um presente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/04/2000.

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