MOREIRA REDIVIVO

Quando leio o endeusamento de alguns críticos literários do leste e do sul a Rubem Fonseca sobre “Secreções, Excreções e Desatinos”, tenho saudade de Moreira Campos. Fico, igualmente, desapontado ao ver que na seleção feita por Ítalo Moriconi, integrante do Instituto de Letras da UERJ, para “Os cem melhores contos brasileiros”, não consta nenhum de Moreira Campos. Não importa que não tenha embasamento teórico para desancar ou elogiar alguém. Mas, seria a banalização da violência e a estética dos dejetos orgânicos o produto requintado de Fonseca?
Retorno ao dia 12 de junho de 1995, quando em que publiquei neste Diário do Nordeste o artigo “Moreira Campos e o Silêncio”. Nele, respondia a Carlos Emílio Correia Lima que, indignado, reclamava do silêncio da crítica literária brasileira ao registro da morte de Moreira Campos. Eis um trecho do que escrevi à época: “Não bastam o nosso ufanismo e a consciência de que se cometem injustiças contra nossos autores. É preciso muito mais. É importante que saiam de seus casulos, de suas trincheiras e batalhem no campo minado que é o mercado editorial”.
Tenho a mesma opinião sobre o assunto. Os culpados, quem sabe, sejamos nós, leitores e autores cearenses, que acendemos um pseudo holofote em terra que se pretende da Luz, mas sofre, a terra, há muito de um apagão auto crítico, pela vaidade provinciana e pelo medo de enfrentar o rito de passagem que é o de procurar ser alguém fora do útero do Ceará. Por essas razões, Natércia Campos, Carlos D’Alge e nós, resolvemos reunir, conhecedores da obra de Moreira Campos, carente de mais divulgação. Descontadas as vaidades de alguns poucos, eclodiu, um alerta e um chamamento a quantos se fecham em suas igrejinhas e convescotes, aos ecos dos próprios escritos e vozes aliadas a um gestual estudado, para uma abertura que contemple até o paradoxo e a humildade de se discutir literatura dentro dos limites de Cine-Teatro Benfica. Acontece que esse cine-teatro foi fincado no mesmo chão em que Moreira Campos mourejou seus escritos. Seria, quem sabe, uma estrutura geológico-literária única a fazer brotar centros de conhecimento. A casa de Moreira Campos foi inundada por estudantes, desejosos de ser alguém. Quem sabe, um novo Moreira Campos.
Isso tudo não me faz cair no exagero de dizer que Moreira Campos seria um Hemingway brasileiro, mas me atrevo a afirmar que ele deve estar no podium, sem medo de ultrapassar, entre outros, os mitos Dalton Trevisan e Rubem Fonseca.
Vou buscar em Hélio Pólvora a gênese do crescimento de Moreira Campos, em que identifica sinais de Graciliano Ramos em Vidas Marginais, de 1949. Mas, é o mesmo Hélio Pólvora quem solta o rastilho da libertação literária de Moreira Campos, na arte de sintetizar o núcleo ficcional. Segundo ele, o Mestre Moreira Campos, poderia manter como divisa de sua arte a observação de Gorki a Thekhov: “também sei que você é um homem a quem basta uma palavra a fim de criar uma imagem, uma frase para armar um conto – um conto maravilhoso que desce às profundezas e significados da vida, tal como uma perfuradora que penetra na terra”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/07/2001.

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