Ao longo da vida vamos conhecendo pessoas. Algumas passam. Outras ficam. Poucas se tornam amigas. Tenho uma concepção de amizade um pouco estranha. Para mim, ela é não uma experiência de troca de favores, tampouco é junção de interesses. Não é a identidade de costumes, vontades e gostos. Nem passa a ser amizade o encontro acidental ou até rotineiro. Amizade é aquela relação que vai brotando como um fio de água entre as pedras e não para de jorrar. O amigo não é o que fala ao seu corpo, ao bolso, mas o que toca a sua alma e lhe dá o direito de arengar em voz alta. . Foi assim com Mussa de Jesus Demes. Conhecemo-nos ao final da década de 60. Estávamos engatinhando na vida profissional. Cada um do seu jeito, no seu mundo, sem interesse ou favores pelo meio. De repente, éramos amigos de conversar horas, sem ver nem pra que. No começo dos 80 ele foi escolhido Secretário da Fazenda do Ceará e exultei por seu sucesso. Ele lá e eu na minha vidinha.
Depois, o Piauí, sua terra natal, o chamou. Ele, que amava aquele chão, voltou e lá foi eleito Deputado Federal. Telefonei parabenizando-o e, em uma de suas vindas à Fortaleza, nos encontramos. Passou horas fazendo a minha cabeça para que eu me candidatasse a Deputado Federal pelo Ceará na próxima eleição. Dizia que eu tinha jeito, capacidade e condições. Disse-lhe que não. Ele me pediu para pensar. Um dia, resolvi ir a uma cidade do interior e ver como a política funcionava. Não era nada do que eu sonhava. Conversamos novamente e falei para ele que não tinha jeito para uma campanha, apesar de achar honroso ser Deputado Federal. Mudamos de assunto e amizade continuou. Ele, especialista em Direito Tributário e Finanças, logo foi novamente chamado para ser Secretário da Fazenda do seu Estado, em meio a mandato. Foi eleito Deputado Federal por seis vezes consecutivas. Era um dos maiores especialistas no Brasil em Reforma Tributária e queria mudar esse caos dos mais de 100 tributos brasileiros. Lutou muito. Nunca fui a seu gabinete em Brasília, mas estive em Teresina algumas vezes para conversar com ele e juntos até almoçamos com o Heráclito Fortes em restaurante simples e bom, com boas risadas. Anos se passaram. Soube que ele estava doente. Liguei e senti o quanto a coisa o incomodava e a luta que estava enfrentando. No Natal passado, sem querer incomodá-lo, entreguei a seu irmão Pedro um bilhete e ele me ligou da forma mansa e carinhosa de sempre. Agora, ele se foi, do jeito que vão os bons, sem barulho, assistido por uma família ciosa de seu líder. Mussa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/11/2008.

