NÃO CULPEM O AGOSTO – Jornal O Estado

As Olimpíadas terminaram de forma apoteótica em um Maracanã pleno de chuva da noite de 21 de agosto. Foram 19 medalhas por 40 bilhões de reais (FSP, 22.08, pag.1). Nessa chuva restavam acumuladas as lágrimas dos que viram a perda do Campeonato Mundial de Futebol, em 1950.
Nessa chuva jaziam, igualmente, os choros de tantos brasileiros que não conseguiram a oportunidade de ver o Brasil ser campeão do mundo, em 2014. Os esportes fazem parte de um país, mas não são a sua razão ser.
O mundo há mudado de forma tão veloz e contundente que a perplexidade nos convida a refletir sobre o que recebemos ao nascer e o que vemos hoje, a partir de nós mesmos – quando somos condescendentes – e dos outros – quando somos críticos.
O Brasil, institucionalmente, não nos deu muita segurança, desde que nasci. O fim de Vargas, o “progresso com Brasília” de Juscelino Kubitschek, a vitória surpreendente de Jânio, incomodado com a grandiloquência da construção de Brasília, semente de um país novo que deveria surgir. Há a renúncia abrupta de Jânio. João Goulart é comboiado desde a China. Após negociações, com a presença de Tancredo, Jango assume, sem muita destreza, um país já muito complexo e perplexo.
Veio o 1964 e tudo mudou. Foi um longo período em que o Brasil estabeleceu parâmetros nacionalistas para definir o seu futuro. E esse futuro não veio como se esperava. Eleições indiretas, Tancredo ganhou, mas não levou. Finou-se. Sarney, com o apoio urdido em madrugada insone, fez-se Presidente. Collor, Itamar, Fernando Henrique I e II, Lula I e II, Dilma I e parte II, compõem o quadro seguinte.
Agora, neste agosto, emerge o fim de uma gestação e um embate político prolongados, entremeados de negociações, de manifestações e de juridicidades. O Senado segue rito, com a presença do STF, e deverá ser a última palavra, talvez, neste final de mês. Por tal razão, o título. Não culpem os agostos de anos distintos para os acidentes e incidentes ocorridos, ou em curso no País.
Qualquer que seja o resultado, o Brasil sairá dividido. Essa divisão nos incomoda, não só pelas opiniões, mas pelas diferenças entre as naturezas e as condições de vida das pessoas que mereciam um país mais equânime, com menos ebulição, produtivo, cumprindo o que a ampla Constituição de 1988, a dita Carta Cidadã, prometeu e não nos entregou, ainda. É chegado o tempo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/08/2016.

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