É claro que sabemos ser amanhã o dia dos namorados, véspera do dia de Santo Antônio. Mas, não sabemos por qual razão, independente da nossa vontade, tem uma frase martelando na cabeça: namorar é não morar. Essa frase veio sem pedir licença, com “gosto de gás” e impôs-se forte e já está ai, escrita.
Convivemos com gente de todas as faixas de idade e sabemos ser a ideia básica do namoro o conhecimento, a explosão do amor e o acasalamento, o morar junto. Aí é onde o namoro pode bater asa, até o casamento aparecer e, mesmo sem querer, fenecer.
Estamos convencidos de que os seres humanos foram feitos para amar e um dos pressupostos para amar pode ser a liberdade: estar-se preso a alguém pelos invisíveis laços do amor. Sonhar é um dos mistérios que nos mantém vivos.
Por que nos rendermos ao cotidiano do pão e café, do banheiro dividido, da cara amassada ao acordar e da falta de ar em meio aos ventos que sopram e não afastam os males? Amor não é consórcio de problemas.
Não morar talvez seja o mais romântico no namoro e diz do desejo de visitas e das premências em ver o outro, rever o rosto, sentir as mãos, aconchegar o corpo, ouvir a voz e escutar o silêncio, após tudo.
Namorar não é sugar o mel, mas ver a flor desabrochar e sentir o seu perfume sem asfixiá-la, deixá-la livre, até que sua fragrância esvaeça, pouco a pouco, tornando-nos ébrio de sentimentos meio desataviados e, paradoxalmente, atados pelos liames do indizível, mas sensível e, até, palatável.
Não morar pode ser a solução anti-habitacional do amor, mas talvez seja também a resposta gravitacional do escravo- livre que, como o João- de- Barro volta ao casulo pelo prazer que dá em construí-lo, sem a obrigação da perpétua residência.
Como seria bom rimar namorar e morar, transformar em versos o que é diverso. Saber que, apesar de iguais, somos absolutamente diferentes e inexoravelmente destinados a uma solidão compartilhada (ou não) ou a namorar sem morar. Paradoxo pouco ortodoxo? Ou a irreverência de uma prudente imprudência? Tempos permissivos?
Morar pode ser conhecer o todo. Pode negar a navegação da descoberta, das trilhas do desejo e dos arrecifes dos amuos. Morar, quem sabe, seja banalizar-se, tornar-se cúmplice de um crime não cometido, proscrito ou prescrito. Por outro lado, se livre estivermos voltaremos felizes em busca da água que sacia a garganta seca e amacia os lábios crestados.
Não nos peçam para ser mais claros. Clareza em excesso cega e só os cegos aceitam guias, pois não têm alternativas. Sejamos essas pessoas confusas, difusas e, até, obtusas que têm a impureza necessária ao pecado de viver.
Façamos do namorar o bem a vir e, do morar a inutilidade, o supérfluo, mas aquilo que talvez fuja à essência do devaneio e escancara a face velada da hipocrisia. O namorar é a esperança. O não morar é a fé no outro.
O morar não deve ser a caridade indesejada ou a acomodação lentamente suicida. O morar deve ser a consciência amadurecida, independente das cobranças, mas produto da vontade e não da obrigatoriedade ou necessidade.
Não se tenham como cínicos, descrentes ou desiludidos. Devemos ser, pelo contrário, um condão de esperanças aos que ainda acreditam que amarras não podem ser confundidas com amarás compulsoriamente pois, caso contrário, o (mesmo) teto cairá sobre nossas cabeças.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/06/2000.

