NEM VICE E, TAMPOUCO, CANDIDATO A PRESIDENTE – Jornal O Estado

“Não são os homens, mas as ideias que brigam”. Tancredo Neves
Semana passada, escrevi, neste mesmo espaço, o artigo “O Brasil, vice a vice”. Nele, relatei acontecimentos políticos, a partir da redemocratização, em 1946, e parei no começo dos anos 1980.
Um dos dois leitores que possuo pediu que o continuasse chamando-me a atenção por não ter falado no movimento “Diretas Já”, encabeçado pelo então deputado federal Dante de Oliveira, há tempos falecido.
Mesmo sendo derrotado, o “Diretas Já” provocou a eleição indireta, em 15 de janeiro de 1985. Concorreram Tancredo de Almeida Neves (vice José Sarney) e Paulo Salim Maluf (vice Flávio Marcílio), saindo vencedor, no Colégio Eleitoral, o primeiro, por 480 votos, contra 180 do ainda hoje deputado federal por São Paulo.
Em véspera da posse, exato no dia 14 de março de 1985, Tancredo é internado no Hospital de Base de Brasília – com UTI em reforma – de onde sairiam os primeiros relatos falsos sobre a saúde dele. O secretário de imprensa escolhido por Tancredo, jornalista, ex-Globo, Antonio Britto, entoava, de forma solene, as notícias. Um detalhe na história: Britto, por conta do excesso de exposição, conseguiu, pós-morte de Tancredo, escrever um livro, ser eleito deputado federal, Ministro da Previdência Social e Governador do Rio Grande do Sul.
Ao ser internado, Tancredo chama o seu primo Francisco Dornelles, após admitir que devesse passar por cirurgia de emergência. Só aceitaria se tivesse certeza de que a posse aconteceria. Não era diverticulite. O fato é que um leiomioma, benigno, encapsulado em seu intestino, se rompera e havia que se estancar a hemorragia e a provável infecção em curso.
Madrugada adentro, reuniram-se, entre outros, Ulysses Guimarães, Francisco Dornelles, Leitão de Abreu, José Sarney e Leônidas Pires Gonçalves, para encontrar uma saída que não se afastasse muito da Constituição de 1967. Era a constatação de que não poderia haver hiato, vazio de poder. Esse fato determinou a decisão harmonizada, não com bons vinhos, mas com múltiplos cafés e telefonemas, na longa noite. E assim se fez.
Tudo engendrado e calculado. Amanheceu radioso o dia 15 de março, e José Sarney, que sequer havia sido empossado como vice, assume, de forma interina, a Presidência da República, aceitando, por completo, os nomes do ministério que Tancredo havia escolhido.
A morte, aos 75 anos (a mesma idade do hoje presidente interino, Michel Temer), obituada no Instituto do Coração de SP, para o qual havia sido transferido de Brasília, ocorreu na noite do dia 21 de abril, data consagrada ao mineiro Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, enforcado e esquartejado no Rio, por ordem do Império.
O corpo de Tancredo Neves pede sossego, mas sai, no dia 22, de São Paulo para Brasília, daí para BH e, finalmente São João Del-Rei, sua terra natal, em comoção pátria provocada pela mídia, em especial, a televisão. Teorias de conspiração e envenenamento à parte. Após a inumação, volta-se à realidade. José Sarney, que sequer fora vice, pois posse não houvera, passa a ser o “primeiro presidente” da Nova República.
Dessa forma, breve, conto a história que os mais velhos e os estudiosos já conhecem. De fato e de direito, José Sarney, que tivera bom trânsito com os militares, foi agraciado por um golpe de sorte e cumpriu todo o período.
Na verdade, Sarney nunca chegou a ser vice – não se configurara o ato jurídico perfeito – e, tampouco, candidata-se a presidente da República. Deixou, como legado bom no início com os “fiscais do Sarney”, país pacificado, eleições livres com Collor presidente e a maior inflação da história, em ajustes do ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega. No último mês, 84%. Isto é o que sei, por ler e ouvir dizer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/05/2016.

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