NETA LEITORA – Diário do Nordeste

Minha neta mais velha apagou 14 velas. Véspera do aniversário, perguntei: O que você quer de presente? “Vô, eu quero livros.” Disse-me autor e títulos. Fiquei muito alegre, pois é leitora consciente, há tempos. Faz anos ganhou concurso entre crianças que se aventuravam a criar estórias e ter seu trabalho publicado em jornal. Fiquei feliz em vê-la recebendo a medalha. Essa sardenta neta querida é bonita, não porque netos sejam sempre guapos, mas porque o seu porte e educação a fazem diferenciada. Seu jeito de falar é pausado, seus olhos acompanham as palavras e sabe onde colocar as mãos. Colocar as mãos num corpo em mutação não é tarefa fácil para adolescente. Ela sabe, sim, usá-las com graça e leveza. Lembro quando iniciava a aprender vôlei. Fui lá ver. Era pequena para a rede alta, mas demonstrou jeito e hoje faz parte da seleção do seu colégio, na faixa etária. Os avós, quando não têm uma avó por perto – o que é o meu caso – ficam meio fora do contexto e não participam, como gostariam, de todos os momentos do crescimento dos netos.
Mesmo assim, já a flagrei isolada de todos, livro à mão, cenho de quem está realmente interessada no que lê. Lembro do dia do seu nascimento. Tive que adiar viagem importante, já marcada. Valeu a pena. À época, neste mesmo jornal, escrevi: “Os poucos, porém queridos, leitores que acompanham este escrevinhador dominical vão me perdoar. Saio do geral para o particular. Deixo de lado preocupações com o mundo e me rendo, com alegria e emoção, ao sentimento paternal e descubro malgrado todas as falhas cometidas ao longo da vida, o prazer de ver uma filha sendo mãe. Pois é, até eu, bastião da pseudo fortaleza masculina, rendi-me ao doce encanto de ser avô”. E por aí ia o meu extravasamento. Hoje, 14 anos depois, ao sabê-la cumpridora dos deveres, esportista, como os seus pais o são, e ter o “insight” de devorar, em silêncio, páginas de livros, lembro da menina “ferrugem” que assim o fazia. Essa outra menina, querida Lu, é sua mãe que ainda hoje tem, à cabeceira, livros para degustar, entre o trabalho e os afazeres de formar filhas conhecedoras da realidade, sem perder o enlevo da benquerença familiar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/07/2011.

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