NO REINO DO FAZ DE CONTA

Bem que nós todos deveríamos estar felizes. Ontem foi o dia das comemorações dos 500 anos do Brasil e, nós os colonizados, agradecemos, rejubilados, aos colonizadores que dizimaram grande parte dos nossos índios(eram 8,5 milhões à época do descobrimento), levaram nossas riquezas minerais para a metrópole portuguesa e, ainda segundo pesquisa feita na própria pátria-mãe, Portugal, eles não são tão apaixonados por nós quanto imaginamos. Daí muita gente não ver razão de tanta festa.
Por outro lado, no tempo em que eu tinha muita fé, hoje, Domingo da Ressurreição, seria um dia para renovar minhas esperanças, especialmente nos seres humanos. Hoje, já não tenho a fé de antigamente, e quando as coisas e a realidade ficam meio confusas e as contas não fecham por conta de auditores que fazem (de conta) que têm alma e veem no erro humano a oportunidade de ajustes (de conta), é hora de dar um passeio no mundo da fantasia e lacrar o cofre do dissabor. Sem medo de viver o sonho, mesmo que fugaz, vai-se ao reino do faz de conta.
Era uma vez um reinado cheio de sol e de gente. O sol parecia torrar o juízo do povo e, talvez por causa disso, uns se compraziam em azucrinar o juízo dos outros. Não havia pessoa que escapasse. Todos tinham defeitos e contas a acertar e, para os poucos que não tinham, inventavam.
Um dia cheio de sol, o que era natural no reino, amanheceu e muita gente foi trabalhar e andar, como de costume. Formavam empresas, grupos, conversavam, riam e brincavam enquanto trabalhavam e andavam. E eis que um súdito possuidor de muitas contas em seu colar, resolveu brincar com uma súdita com menos contas em seu(dela) colar. Era costume no reino que só as pessoas de colares parecidos poderiam ter intimidades. Precisavam ser parecidos em quantidade e na forma das contas. Havia contas para todos os gostos, e isso é que era levado em conta. Cada qual segundo as suas contas, era a espécie de regra social do reinado.
Um belo dia ou noite, ainda não se sabe bem e talvez não se saiba nunca, começaram a fazer contas e era conta que não acabava mais. Até se imaginou que conta não contava. Mas contava. O povo não deixava de contar e nem fazia de conta que não estava contando. E os dois, segundo uma versão, mesmo sem querer, foram se preocupando com as contas que haviam se entrelaçado, mas fizerem de conta que nada havia contado. Mas há outras versões, é o que se conta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/04/2000.

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