NOITE DO ÁLBUM DE 1931 – EM 2016 – Jornal O Estado

“A época mais obscura é hoje”. R. L. Stevenson, escritor inglês.
Em noite festiva, no antigo Palace Hotel, na Rua Major Facundo, olhando para a Praça dos Mártires, onde foram imoladas em nome do Império, pessoas que contribuíram para a consolidação da formação do Estado do Ceará, oscilando entre ser parte de Pernambuco e do Maranhão foi relançado, em edição fac-símile, o “Álbum de Fortaleza”.
Esse livro, que mistura “reclames” ou propaganda com dados estatísticos, louvações a negociantes e a autoridades locais, foi organizado, publicado e comercializado por Paulo Bezerra, em 1931. Apesar disso ou por causa disso é documento histórico ora reeditado.
O ágape, com elevada frequência e vozerio, foi uma ação da Fundação Waldemar de Alcântara no afã de engrandecer a “Biblioteca Básica Cearense”, uma das guardiãs da nossa memória, na pessoa do bibliófilo e intelectual Lúcio Alcântara, um “apologista do passado”( Laudator temporis acti ), como dizia o poeta latino Horácio, em “Arte Poética”.
A FWA obteve na biblioteca da Academia Cearense de Letras – ACL, o original do “Álbum de Fortaleza” e, a partir dessa descoberta, realizou bela e importante tarefa: o resgate da história da cidade de 111 mil habitantes, início do Estado Novo, período de exceção comandado por Vargas que se estendeu até a metade dos anos quarenta, coincidindo com o fim da Segunda Guerra Mundial.
O prefácio da versão de 2016 foi escrito pelo professor, arquiteto e historiador José Liberal de Castro que nele afirma: “O empreendimento, que tanto entusiasmava Paulo Bezerra, apoiava-se na suposição equivocada de que seu plano era inédito, embora, na verdade, em dias anteriores, a Cidade já houvesse sido louvada em outras publicações semelhantes. A primeira deles, de 1908, conquanto praticamente dedicada à Capital, denominava-se “Álbum de Vistas do Ceará”.
Acrescenta Liberal de Castro: “No caso, Ceará era sinônimo da cidade de Fortaleza, uma vez que naquele tempo ainda prevalecia a flutuação toponímica no uso indistinto dos estados e de suas capitais, prática hoje limitada apenas à Bahia”.
Em crítica ao aspecto comercial do álbum original de Paulo Bezerra, Castro refere: “O álbum de 1908, primorosamente editado pela poderosa Casa Boris em Nancy, na França, não buscava exaltação aos patrocinadores, pois não os nomeava, não os mostrava em fotografias e nem sequer mostrava o nome da firma patrocinadora”.
Voltemos à noite no Palace Hotel. A totalidade de livros postos à venda, por preço simbólico de vinte reais, foi comprada. Os que prestaram respeito e atenção ouviram a fala do dirigente maior da FWA, Lúcio Alcântara, sobre as pesquisas posteriores à cessão do livro para a descoberta em vão de familiares vivos de Pedro Bezerra – que se transferira para o Estado de São Paulo – e os agradecimentos ao Banco do Nordeste do Brasil, patrocinador da obra.
A foto original da capa do “Álbum de Fortaleza”, salvo engano, já havia sido usada por Marciano Lopes, memorialista falecido, em publicações suas sobre a Fortaleza do passado, que ele alcunhava de Belle Époque.
Os muitos anúncios comerciais, quase sempre ocupando as páginas esquerdas do álbum, mostram a natureza extrativista, o comércio de algodão, peles e couros, bem como, a importação e exportação, ativas para o resto do país e exterior. Há material para demonstrar a consolidação ou esgotamento de empresas da época, bem como, as poucas famílias que remanescem à frente de empresas.
Por fim, destaco as informações estatísticas do período e os artigos. A partir de José Martins Rodrigues sobre a “Magistratura Cearense”; Tomaz Pompeu Sobrinho, quando analisa “A Pecuária no Ceará”; Humberto R. de Andrade, disserta acerca da “Agricultura no Ceará”. Vi, com alegria, os sueltos de Antonio Furtado, sobre o surgimento do pintor Vicente Leite, e o de Rachel de Queiroz sobre o escritor, o farmacêutico e o homem de bem que foi Rodolpho Theóphilo.
Tal como essa adequada iniciativa, Fortaleza e o Ceará precisam ter suas histórias, estórias e personalidades mais revisitadas. Da minha parte, coloco-me disponível para essas tarefas, se convidado for.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/06/2016.

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