NOVO LIVRO? – Diário do Nordeste

Sei que tenho uns poucos leitores assíduos de meus escritos semanais. Sei que tenho amigos puristas que os chamam de artigos, sei que tem gente escondida que lê, gosta, mas não diz que gostou. Sei também que há gente que não gosta e finge adorar. É assim mesmo, não dá para ser agradável ou desagradável o tempo todo. É-se. E em sendo eu mesmo, escrevo sobre tantas coisas, não porque falte assunto. O que me falta é mais espaço para dizer. Tenho à disposição semanal 2.100 caracteres, cerca de 400 palavras, o jeito que penso e escrevo para tentar levar os olhos do leitor da primeira até à palavra final. É claro que há temas que não interessam ao Zé ou à Maria naquele instante da leitura, mas escrevo sobre coisas tão diferentes que acabo achando ledores que se identifiquem.
Falo da minha terra, meu país, viagens, família, solidão e encontro, ‘puxavante’ de orelha em amigos, refiro-me a livros que li e gostei ou não, meu Clube do Bode, filmes que vejo na telona, a violência que nos oprime, do contentamento ao olhar um neto que surge. Reclamo de gente desonesta com pinta de séria, líderes de nada, declaro torcer pelo Fortaleza e ver árbitros garfando-o, amores e dores, fatos passados, acolho o inesperado. Falo de gente, não de enfatuados, fingidores e presumidos, mas gente, não puxo saco, cobro atitudes, mas sei do efêmero do escrito em jornal.
Por estas e por outras é que amigos têm me pedido para reunir crônicas e montar mais um livro, tematizado e contextualizado. Qualquer dia me rendo, separando as quase seiscentas crônicas que consegui salvar entre tantas perdidas e editá-las. A quem entregar a tarefa? Gosto do Geraldo Jesuíno e do Luiz Falcão, mas como uni-los? Quem sabe peça ao Natalício Barroso, talvez ao Josino Lobo, quem sabe à Sílvia Magalhães ou à Rejane Costa Barros para fazerem uma leitura prévia e aproveitar as crônicas passáveis e possíveis. Eu, particularmente, não ouso, pois elas são filhas nascidas do meu jeito de ser e a autoestima – palavra moderna para o narcisismo – impede que se rejeitem filhas queridas.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/06/2007.

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