NOVOS MICROCONTOS

Quando tive a coragem de publicar 12 microcontos neste espaço, fiquei tão atônito que até meu e-mail forneci para receber opiniões. Foram várias e, graças a Deus, sempre favoráveis. Bancário, advogado, psicanalista, médico, pedagogo e jornalista (imaginem) foram algumas das profissões de pessoas que, não só gostaram, mas pediram para escrever mais alguns. Aproveito este espaço liliputiano com tipo de letra consorciado a oftalmologistas e óticas, para, apropriadamente, publicar mais alguns microcontos.
MC 01
Os gêmeos univitelinos eram econômicos. Uma só casa, um só carro, um retrato 3X4 para os dois, uma só mulher e um vizinho muito atuante.
MC 02
Deu na televisão. Um brasileiro, afinal, poderia ganhar o Prêmio Nobel da Paz por ter matado um grupo de brancos que dizimara uma tribo de índios.
MC 03
Tinha consciência de sua falsidade e isso o machucava. Subiu no palanque, abriu o sorriso, fez o discurso e se julgou eleito pelo povo.
MC 04
Viúva recente. Os bons costumes pediam recato. Telefonou, pediu uma pizza e entregou-se ao entregador na cama do falecido.
MC 05
Vail, Colorado. Os esquis caíram. A neve a cobria, lentamente, até o pescoço. Gritou e a avalanche chegou em resposta.
MC 06
Hospital cheio e o jovem médico atendia pacientemente a moça estuprada. Limpava o sangue e o seu sangue fervia. Tomou um calmante e deu uma canelada na maca.
MC 07
Pois não é que descobriram umas cartas da Hillary para a Mônica reclamando de sua falta de amor ao Bill. Hillary, indignada, dizia não entender a traição de Mônica.
MC 08
No interior do submarino ele temia ler a carta da mãe. Criou coragem e leu que seu casamento dera água. Sua mulher acabara de fugir com um vendedor de aquários.

MC 09
Estava com fome e não tinha dinheiro. Trocou a roupa do corpo por um sanduíche. Teve botulismo e o corpo pagou.
MC 10
Ajustou os óculos novos. Enxergou o que não via antes: a miséria de sua casa, a pobreza de sua favela e a fealdade do seu rosto. Matou o oculista.
MC 11
Era carnaval. Tímido, usava máscara. Encontrou-se perdido no meio da multidão abraçado a um gay. Gostou. Rasgou a máscara.
MC 12
No curso da invasão de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao chão, o rifle tombou e ela tomou posse dele.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/1999.

Sem categoria