O APOSENTADO E A SENADORA

A era do pecado explícito americano terminou ontem. Hoje recomeça o moralismo rico, branco, anglo-saxão e protestante. Terminou a fase do tocador de saxofone. Meio desafinado talvez, mas com as bochechas cheias de ar que se transformavam em foxes e blues sincopados que muito têm a ver com os negros e a mãe África, berço gerador de parte da musicalidade que tomou conta dos microfones de Nova Orleans, Menphis e da Nova Iorque de tantos ritmos e melodias e se espalhou pelo mundo.
A era dos charutos cubanos pitados escondidos desaparece em meio à fumaça do tempo. O que talvez se verá na era de moralismo emergente será a fumaça do bom juízo. E o rapaz, apesar de ter sido um grande advogado e da posição que ocupava, não conseguiu se livrar de grandes questões judiciais que ainda ameaçam ser reativadas. É o ônus de sua vitalidade. Nascendo pobre em uma pequena cidade chamada Esperança (Hope), acabou dando no que deu.
A era dos olhares cúpidos chegou ao fim. O homem que, mesmo conduzindo a maior economia do mundo, não deixava de fixar olhares em rabos de saia e andou se metendo com muitas mulheres, embora sabendo da fera que tinha – e tem – ao lado. Fera adormecida que hoje é senadora e pode passar a rugir.
Ele é hoje um aposentado de luxo aos 54 anos. Sai do Distrito de Colúmbia e vai morar em um subúrbio luxuoso de Nova Iorque. A partir de agora e pelo resto da vida, como pagamento do que fez nos últimos oito anos, ganhará bem. Cerca de 25 mil reais por mês, mas tem contas a acertar com advogados que o defenderam por honorários milionários. Talvez por causa de tais dívidas aceite receber um adiantamento de 5 milhões de dólares por sua biografia. Já disse que não usará de escritor-fantasma e mostrará o que a moral americana tem olhos para ler sem arregalá-los mais do que deve.
Esse hoje aposentado – ainda com muito gás, diga-se de passagem – cometeu muitos erros, apoiou governantes que se tornaram corruptos, aumentou o protecionismo, deixou de ajudar nações pobres que deveriam ter sido mais assistidas, lançou mísseis sobre alvos civis, tentou celebrar pazes entre povos sem êxito, mas teve o mérito de reconhecer erros e, por incrível que pareça, propiciou a criação de 22 milhões de novos empregos e fez voltar a autoestima de um povo que não comprava mais nem os carros nacionais.Não foi, nem é e nunca será um anjo, mas desmitificou o salão oval da Casa Branca, tornando-o um lugar comum, com o pecado trabalhando ao lado. É um homem do Século XX, que parece ter sido, para alguns, apenas o século dos erros, comuns a todos os mortais pecadores, sem o que não necessitaríamos de perdão da divindade superior.
AGRADECIMENTO: Durante anos escrevi, uma vez por semana, neste espaço. Peço desculpas aos leitores pelas crônicas que não agradaram. Afinal, foram algumas centenas. Resolvi, por decisão pessoal, dar um tempo e deixar de escrever com regularidade. Poderei voltar a fazê-lo sem a obrigação semanal. Aos raros e caros leitores e aos que fazem o DN, muito obrigado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/01/2001.

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