O ATO DE LER

Há dias, participava eu de uma reunião com amigos inteligentes e instigantes, quando surgiu uma suave e agradável discussão sobre livros. Em meio a vários autores e livros citados eclodiu o nome de Carlos Heitor Cony e, consequentemente, o de um livro que, por sinal, ensejou o mote para o artigo da semana passada.
A discussão girava em torno do nome do livro. Enquanto eu sustentava que o livro se chamava “Quase Memória – Quase Romance”, um outro amigo afirmava, de forma veemente, que o título era apenas “Quase Memória” e alegava, em reforço de sua opinião, já ter comprado – e dado de presente – mais de 20 exemplares do citado livro.
Como o livro não estava à mão, as discussões foram ficando acaloradas e ligações telefônicas completadas para livrarias locais. Em todas, a resposta foi contra mim. Pedia-se que lesse a capa e eles, os atendentes das livrarias, diziam: “Carlos Heitor Cony, Quase Memória”. Até a minha secretaria do lar, consultada ao telefone, deu a mesma resposta. Apostamos, de forma simbólica, eu e o amigo, cinco reais cada. Pedimos a outro amigo para servir de juiz. Diplomaticamente, o amigo nos devolveu o dinheiro dizendo que não se tinha chegado a uma conclusão. Na verdade, todos pensavam que eu estava errado. O pior era que eu tinha a convicção de que estava certo.
Liguei novamente para minha casa e pedi que deixassem o livro na portaria. Acompanhado de um amigo, por sinal, um magistrado, passei e recolhi o livro. Estava lá na capa: “Carlos Heitor Cony, Quase Memória, Quase Romance”. O problema estava desvendado e o meu amigo conselheiro, prudente e conciliador, dizia que o fato das duas palavras “Quase – Romance” terem sido escritas em um tipo menor dava a idéia de um subtítulo. Lêdo engano. Fomos para a ficha de catalogação e ficou claro, mais uma vez, que o nome do livro era o que eu dizia. Não são a tipia, a escolha e o tamanho da letra, que determinam o título de qualquer obra literária.
A intenção de Cony era exatamente a de ter um título duplo, usando tamanhos diferentes de letras em uma mesma capa. Coisa tão simples, captada pela bibliotecária que fez a ficha de catalogação. Do ponto de vista da semântica, Cony obedeceu à regra de empregar a letra inicial maiúscula, como bem diz o professor de Português, José Myrson Melo Lima: “Emprega-se a letra inicial maiúscula, entre outros casos, nos nomes de títulos de livros”.
As bibliotecárias, por ofício, são obrigadas a saber ler, para registrar, pelo método de catalogação escolhido, as características do livro ou a sua ficha técnica. “Quase-romance” não é gênero literário. Foi um recurso usado pelo autor para misturar, sem pedir desculpas, a ficção e a não ficção. O gênero literário é romance brasileiro.
Tudo isso por causa de uma discussão pueril, à moda dos saraus literários de antigamente. Ler, para mim é um ato muito importante. Aprendi, desde cedo, a ter esse hábito que, com o passar do tempo, tornou-se quase um vício diário sempre crescente E quem ler por prazer e vício é cioso do que faz. Ler não é só perpassar os olhos sobre um texto, é fixar o seu conteúdo, é entender as linhas e as entrelinhas.
Segundo a enciclopédia Delta Larrouse ler, entre outras coisas, é “Tomar ou dar conhecimento do conteúdo de um escrito; penetrar algo não manifesto”.Dessa forma, ler é um ato solitário, quase sempre, em que se precisa tomar conhecimento. O conhecimento é mais que um simples passar de olhos por uma página. É observar, captar e registrar. Como diria Bertrand Russel: “O conhecimento pode ser comunicado e ensinado, mas não a sabedoria”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/1999.

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