“O Brasil não é para principiantes”, frase atribuída a Tom Jobim.
No Brasil, há coisas estranhas, dignas de serem analisadas pela sociedade psicanalítica nacional. Houve tempo em que carros mostravam o adesivo: “Brasil, ame-o ou deixe-o». Depois, veio a luta pelas diretas e o País se veste de verde e amarelo. Tancredo vai eleito, por via indireta, e há verdadeiro carnaval. Aí, Tancredo adoece, morre, e o País se desmancha em lágrimas. Cada pessoa parecia ter perdido um pai ou um conselheiro.
Surge o presidente Samey e repete, no discurso de posse, uma frase de Tancredo: “É proibido gastar”. E começa a gastar. Gasta tanto que só há uma solução: o Plano Cruzado. “Cada brasileiro ou brasileira deverá ser um fiscal do Presidente”, disse, e o povo aceitou. Nunca houve tanta delação quanto logo após a decretação do Plano Cruzado. A Sunab e a Polícia Federal ficaram encarregadas das reclamações e de trotes, dos fuxicos e das perseguições de pessoas que não gostavam de outras e, aproveitando a ocasião, haja denúncias.
Sarney enxuga as lágrimas do povo brasileiro e passa a ser o nosso novo herói. Todo bom herói que se preza tem o seu fiel escudeiro, o Dilson Funaro. Menos de um ano se passou e Sarney perdeu o seu trono na paixão coletiva. Depois, o lbope disse ao Sarney que o caso de amor estava acabando juntamente com a nossa paciência. Ele resolveu arregaçar as mangas de seu jaquetão clássico, pentear os bigodes e a cabeleira e costurar o “pacto social”, que não aconteceu.
Após Sarney veio o Collor, com a aceitação total da mídia e da maioria dos eleitores que não souberam ver a intranquilidade no seu olhar e no gestual. Deu no que deu. E aí veio o Itamar com o seu temperamento ciclotímico e a ideia de ressuscitar o velho Fusca. Apesar disso, quase no final do governo Itamar, Ciro Gomes e economistas de peso bolaram o Plano Real, do qual se apropriou o novo Ministro da Fazenda, FHC, e daí para a eleição foi um passeio. FHC vai reeleito, a custa de barganhas.
Em meio a procelas e ajustes, o Plano Real se mantém há 21 anos e o povo, cheio de promessas, permitiu a aprovação da reeleição, deixando para depois as reformas fiscal, administrativa e previdenciária. Temos tempo. O brasileiro estava alegre, até frango comia.
Saiu FHC, entrou Lula, o metalúrgico do ABC, falando a linguagem que a maioria do povo queria ouvir. Os empresários torceram os narizes. Em seguida, houve a aproximação que virou amizade. Lula vai reeleito, viaja pelo mundo, propaga um Brasil crescente, resolvido, cheio de orgulho e zera as contas com o FMI.
Elege Dilma Rousseff, oriunda do Brizolismo, economista, descasada, mineira aclimatada no Rio Grande do Sul e ex-guerrilheira. Emerge o sonho da mulher descrito, entre outras, por Simone de Beauvoir, Rosa de Luxemburgo e Bertha Lutz. As mulheres vibram e Dilma vai eleita com discurso imprevisível. Passam-se quatro anos, o mundo perde o gás econômico, mas, Dilma vai reeleita por estreita margem. O país entra em 2015 nitidamente dividido, começa o segundo mandato. Empreiteiros, cambistas, ex-diretores da Petrobrás e integrantes de diversos partidos, são chamados à ordem por um juiz com sobrenome parecido com Thomas Morus-o filósofo da utopia-, que principia a deslindar a enorme teia como no “O Labirinto” de Jorge Luis Borges. Mas, e o Minotauro?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/07/2015

