O BRASIL PATINA – Jornal O Estado

Quando imaginava poder aprender microeconomia, o que não aconteceu, uma expressão ficou gravada na memória: o ponto do nivelamento ou o “break-even-point”. Entendo ser essa a fase em que a macroeconomia, paradoxalmente, coloca o Brasil. Queiramos ou não, o país é, em sentido amplo, uma grande empresa, da qual todos fazem parte. Temos que ir para frente. Mas há entraves que nos tornam desencantados. Se você quiser ir de trem ou de navio do nordeste para São Paulo, o que fazer? Não há ferrovias nacionais, tampouco boa navegação de cabotagem. Só há dois meios: estrada ou céu. As estradas brasileiras são feudos de partido político que não se importa com buracos, mas parece fazer rombos em licitações duvidosas. Caminhões e ônibus são parados por assaltantes. No céu, além de, em terra, aeroportos sem tecnologia logística de ponta, cada transportadora transformou seus aviões em amontoado de cadeiras com muito menos conforto que ônibus rodoviário, não fossem os buracos destas. Não conheço nenhum país desenvolvido que não possua boas estradas, ferrovias nacionais e portos com grande movimento de navios de passageiros e cargas. Sejam portos fluviais ou marítimos. Não conheço nenhum país desenvolvido que não respeite o trânsito e a acessibilidade. Dia desses, em um lugar de bom nível, vi um cadeirante a reclamar do acesso e de que a porta do banheiro não permitia a sua entrada. O trânsito brasileiro é uma fábrica de cadáveres. Ninguém respeita a velocidade, porque não há nenhuma pessoa a instruir. Usam-se máquinas de fotos sensores e pardais, apenas para multar. Não há mais guardas orientando pedestres e guiadores. Há, sim, agentes de blocos em punho para flagrar delitos, mas não se estimula a construção de edifícios garagens e ciclovias, tampouco se força o uso de faixas de pedestres com gradis protetores. As motos, de diferentes cavalos, transformam o trânsito em “farwest”. Há nuvens de capacetes coloridos e afoitos em meio a carros soltando CO2 parecendo, do alto, uma tela surreal. Claro que a indústria está crescendo, mas não podemos conceber que um turista caia de bonde, agonize na rua, seja assaltado e não socorrido. Deve existir segurança pública. Há anos, estava com amigos visitando a Europa. Folgazões. De repente, sentimos falta de uma delas. Voltamos à praça. Um taxista informou que ela havia desmaiado e um colega seu a levara a hospital público. Havia tido uma hipoglicemia. Fomos ao hospital: limpo, sem macas nos corredores e ela tendo pronto atendimento. Custo zero, serviço público. Aqui se morre nos corredores de hospitais por falta de atendimento. É por tudo isso que torço por Dilma. Para que desmonte a estrutura política eivada de erros e comprometida com o atraso. Só assim, sairemos do ponto de nivelamento – em que patinamos – para o almejado estado de bem-estar social onde não existem tantos miseráveis, o esgoto seja uma obrigação e não uma conquista. A lama desapareça das favelas que precisam ser urbanizadas e acolhidas numa sociedade discriminatória e excludente que deve mudar.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2011.

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