O Ceará começa o ano de 2016 com dois trunfos na área sagrada ou religiosa. O primeiro é Cícero Romão Batista, padre e político, nascido no Crato, agora reabilitado pela Igreja de Roma. A vida do Padre Cícero possui várias versões e foi objeto de ensaios, livros, teses acadêmicas, cordéis e publicações apócrifas.
A decisão aconteceu no final de 2015, após muita espera e perorações de religiosos, de leigos e de políticos, com múltiplas pressões e viagens ao Vaticano. Francisco, latino, na qualidade de Papa, sancionou, afinal, a pública reabilitação do Padre Cícero, o demiurgo dos cariris nordestinos.
O segundo trunfo veio de ato anterior: em 7 de abril de 2015, depois de ouvidas as entrâncias competentes, a Santa Sé considerou D. Hélder Pessoa Câmara, cearense de Fortaleza, como “Servo de Deus”. Esse é passo decisivo para o processo de canonização de postulante. Pernambuco adonou-se do processo e, através de seu arcebispado, apresta-se para, em pouco tempo, fazer provas de milagres – dois, pelo menos – necessários à santificação.
Engajado em movimentos sociais, D. Hélder Câmara, em vida, havia sido indicado por quatro vezes para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Em paralelo, o governo do regime militar teria trabalhado em contrário, usando vias diplomáticas para vetar o nome dele.
Em Fortaleza, cidade natal de D. Hélder, talvez no próprio Seminário da Prainha, onde perto morava, e ali foi ordenado em 1931, aos 22 anos, poder-se-ia criar um museu – aberto ao público – mostrando o trajeto da sua vida. Evoluiu de adepto do positivismo e de Plínio Salgado para postura consagradora quando, na condição de bispo, aos 43 anos, e arcebispo do Rio de Janeiro, comandou cruzada cívico-religiosa em favor de moradia para os pobres e, especialmente, como mentor da criação da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a hoje respeitada CNBB.
Em janeiro de 1964 foi nomeado Arcebispo de Olinda e Recife. Dizia-se, à época, que Pernambuco tinha a sorte de possuir dois grandes cearenses a seu serviço: o governador Miguel Arraes e D. Hélder Câmara. Veio o movimento de abril de 64, e Hélder teve postura defensora dos direitos humanos e denunciadora, no caso da morte de um padre, seu auxiliar.
Acresça-se a esses trunfos as tradicionais romarias a Canindé, em homenagem a São Francisco, no final de setembro e no começo de outubro. Visão religiosa à parte, bem que o Ceará poderia consolidar-se como centro místico de visitação permanente, posto que há a tendência natural dos que demandam a Juazeiro do Norte e a Canindé. Quixadá conta, igualmente, com as romarias para Maria, Rainha do Sertão, incentivadas por D. Adélio, hoje bispo resignatário.
Estes breves relatos, alinhavados e de todos conhecidos, servem como lembrete ao Estado do Ceará e ao governador Camilo Santana, originário do Cariri, para a importância a ser dada à disseminação da fé não só pelos romeiros e peregrinos, mas, igualmente, para a real difusão de roteiros, caminhos e eventos que aproximem os turistas, inclusive os não religiosos, desses fatos da História do Ceará.
Assim, poderá o Ceará apropriar-se da sua história religiosa, do trabalho de todos e da fé dos sertanejos – essa força do povo a enfrentar a tragédia das secas e alguns desmandos políticos e empresariais – oferecendo o contraponto ao que é exibido por sistema nacional de televisão, a ansiar provar que “nada melhorou” 85 anos depois do relatado em “O Quinze”, romance de Rachel de Queiroz, de 1930.
A todos, acreditem no ano do bem de 2016.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2016.

