O CELIBATO E A IGREJA

Há uma antologia feita por William J. Bennett que se chama “O Livro das Virtudes -O tesouro das grandes histórias morais”. O livro foi traduzido e adaptado para o Português por Luiz Raul Machado e publicado pela Editora Nova Fronteira.
Esse livro enumera uma lista de virtudes que não são as únicas necessárias a um ser humano, mas básicas ou fundamentais. É claro que toda preferência implica em uma supressão. Mas, o que gostaria de levantar é que entre essas virtudes citadas não há o celibato. Neste começo de Século XXI, o celibato ainda é uma das mais fortes decisões dogmáticas, políticas ou estratégicas da Igreja Católica Apostólica Romana, remontando a sua consolidação ao Século XVI, no Concílio de Trento.
Voltemos às virtudes citadas por Bennett. São elas: Disciplina, Compaixão, Responsabilidade, Amizade, Trabalho, Coragem, Perseverança, Honestidade, Lealdade e Fé. São 10 as virtudes. Iguais aos mandamentos da Igreja, mas não há nenhuma referência a celibato e olha que o livro trata das qualidades essenciais à formação ética das pessoas.
Falemos um pouco de celibato. A Enciclopédia Larousse e o Aurélio dizem que “celibato é estado de celibatário, condição de solteiro” ou “o estado de uma pessoa que se mantém solteira”. De uma forma ou de outra, deduz-se que é uma opção pessoal. No caso da Igreja, deixa de ser uma opção para ser um ato de disciplina, responsabilidade, coragem, perseverança, honestidade, lealdade e fé. Em outras palavras, na visão estrita da Igreja, o celibato precisa de várias outras virtudes, mas não é, em si, uma virtude.
Tudo isso me vem à mente por várias razões. Uma delas: na minha adolescência quis ser padre, mas já achava antinatural que se considerasse pecado até uma simples polução (polução mesmo) noturna de um jovem com hormônios à flor da pele. Havia ainda o voto de castidade eterna que estava implícito no celibato. Era demais para mim.
Essa questão vem, tempos em tempos, à tona. Nesta semana, a revista Veja (edição de 12.01.2005), na sua página 86, sob o título Anunciado, traz a seguinte matéria: “acordo da Igreja Católica da Califórnia com 87 vítimas de abusos sexuais praticados por membros da diocese local contra menores nas últimas seis décadas. Serão pagos 100 milhões de dólares em indenizações. Em 2003, a diocese de Boston pagou 85 milhões em acordo semelhante. Calcula-se que o total de indenização no gênero nos Estados Unidos possa atingir 01 bilhão de dólares”.
A minha pergunta – e de tantos outros – volta com mais intensidade: qual a razão dos padres serem celibatários, se a natureza e a fisiologia humanas indicam o contrário? Por qual motivo, a Igreja Católica ainda insiste em não enxergar o mal que faz a homens de fé, virtude, honestidade e outras virtudes, mas que sentem, mais fortes que suas vontades, o desejo de se acasalar? Não encontrando o apoio de sua igreja, muitos apelam, entre outras soluções, para o homossexualismo e causam constrangimento a tantas pessoas que veem com tristeza a cegueira de Roma que já dura cinco séculos. Até quando?
João Soares Neto,Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2005.

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