O CENTRO DO MUNDO – Diário do Nordeste

Pode parecer cabotino, mas é tempo de dizer bobas palavras. Quando fiz a primeira comunhão, com calças curtas e paletó de casimira azul, camisa branca, laço no braço um flash registrou o fato, fiquei feliz. Aquele enlevo. Depois, quando conclui o curso de humanidades: todos de terno branco, a foto coletiva. Subi os degraus do Theatro José de Alencar para colar grau em administração, acompanhado do meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira. Clarão.
Ano seguinte, na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, recebi o grau em direito, lado a lado com meu pai, acolhido por Antônio Martins Filho, Reitor e Luiz Cruz de Vasconcelos, Diretor da Faculdade de Direito. Todos eles estão rindo, na foto. Eu, nem tanto. Parecia intuir que o mundo não tem centro e eu teria de fazer o meu caminho.
Fotos foram registrando eventos. A abertura do primeiro escritório. A formação da primeira empresa, o casamento, o nascimento das filhas, os seus crescimentos, as viagens, os lançamento de livros, as academias, os encontros familiares e o que veio depois. Semana passada, cumpri anos, como dizem os hispânicos. A cada dia descubro estar longe do centro do mundo. Nunca descobri onde fica.
Ocupo apenas o meu espaço, fazendo o que posso, procurando aprender o que ainda não sei. E é muito. Neste momento brasileiro, quando desencontros de opiniões, de ideias e de valores são a constante, desejo a volta daquele enlevo do menino da primeira comunhão e o discernir do jovem recém-formado. Vivo cada dia com a obstinação de montanhista, mas sinto o quanto é duro pisar firme em meio íngreme.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/08/2015.

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