O CERCO À CHEFE – Diário do Nordeste

Ao redor da minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, no trabalho e no carro. Os papéis vão tomando os espaços de mesas e dos sofás. É bagunça. Hoje, resolvi fazer uma limpeza nesses papéis avulsos. Estou meio gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros e culpa. Não precisarei disso daqui a algum tempo?
Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, vi que logo acima falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos (1882) de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a matreira crítica machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, especialmente em “A Sereníssima República”.
A propósito, a nossa República de 2014 não anda nada calma. Há muitas questões irresolvidas entre os poderes e as mídias de hoje – que ainda incluem jornais, revistas e livros – mostrando as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados.
Partidos malthusianos ocupam todos os espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado, por falta de confiança em auxiliares que escolhera para cargos estratégicos do governo. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/11/2014

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