O telefone tocou. Era uma filha. Iria deixá-la no aeroporto. Mãe recente, mora fora daqui e viera matar as saudades. Marcamos a hora. O carro tinha um assento para bebê no banco traseiro. Fomos eu e a filha, no banco da frente. No traseiro, a neta e a babá. Saímos ouvindo música, mas logo adiante havia uma batida no cruzamento de duas ruas. Dois carros enganchados e uma moto caída. Rapaz ao chão, mas com pequenos ferimentos.
Contornei o problema e lá vamos nós. É noite, céu escuro, bom tráfego e chegamos ao aeroporto. Estávamos no horário. O marido iria esperá-la. Tiramos a bagagem, mas o assento para bebê resolveu criar caso. Ele, como manda a lei, estava afixado nos cintos de segurança do banco traseiro. A filha, acostumada a montá-lo e a retirá-lo, encontrou dificuldade. Uma alça cismou de não sair do engate.
Depois, fui eu, crente. Resolveria em um minuto. O tempo passando. Acendi as luzes internas, liguei o pisca-alerta – estava na entrada do aeroporto. Sou canhoto e meio desengonçado, tentei, virei e mexi, comecei a suar e nada da alça sair.
Foi então que tive a brilhante ideia. Vá, filha, faça o despacho que eu resolvo aqui. Ela argumenta que o assento seria preciso e que, além disso, deveria ser envelopado com plástico, pois a companhia aérea não permite que vá na cabine. Vai para o porão, em meio a malas, encomendas e animais de estimação grunhindo.
Não se preocupe, eu, o pai metido a resolvedor, disse. Lá se foi ela fazer o despacho. Nada da alça soltar. O tempo correndo. Um rapaz em farda de serviço prontificou-se a ajudar. Pimpão, destravaria o engate. Foram mais dez minutos. Aí, desisti. Iria cortar o cinto, mas não sabia como fazê-lo. Afinal, na própria empresa de embalagens consegui um estilete e o repassei para o rapaz prestimoso, com a ordem de cortar o cinto do carro.
Ele atordoou-se, e, como só soube depois, cortou, por engano, o cinto do assento para bebê. Agora, era embalá-lo, pois não desconhecia o cinto cortado, lembre. Tudo foi embalado, fita gomada e um aquecedor acesso soltando vapor para extrair o ar do pacote. Só tinha uma nota de R$ 100,00 e esperei pelo troco de R$ 55,00. Meio desajeitado, peguei o pacote e fui ao despacho.
A filha, paciente, esperava por mim. Deu certo. Subimos de elevador, despedi-me da filha, da neta, e da babá, uma senhora que já cuidou, interestadualmente, de mais de 21 crianças. Isso eu soube antes de chegar ao aeroporto. Distribui beijos e tomei o caminho de casa. A filha ligaria ao chegar. Era noite, não tão cedo mais.
Tomei banho e fui ler a revista “Veja”. Só notícias ruins. Larguei. Peguei o livro de ensaio “Amigos Escritos”, de Sueli Tomazini Barros Cassal, sobre as cartas trocadas entre Monteiro Lobato – um dos meus autores favoritos – e o escritor Godofredo Rangel.
Lobato era escritor, editor e empresário. Foi quem primeiro levantou a ideia de furar poço para descobrir petróleo. E assim o fez, alardeando por carta ao presidente Vargas na imprensa a sua audácia. Era tempo de ditadura. Os do Palácio do Catete, aborrecidos com uma carta de Lobato e a pressão da imprensa para começar a exploração de petróleo, o processaram e, em seguida, prenderam Monteiro Lobato. Era 1941.
O telefone toca. Era a filha. Haviam chegado. Tudo estava bem, mas ao desembrulhar o assento do bebê, faltava o tal cinto. Mal dormi. Amanhece, examino o carro e encontro o dito cinto, cortado. Incontinenti, sai à procura de maleiro. Parei no primeiro: Oficina das Malas. O dono, Macedo, senhor simpático, conversador, cearense, morara em São Paulo, com sucesso no seu negócio nos jardins. Preferiu voltar. Ele conversando. Eu esperando.
Entrega o cinto, costurado e recosturado. Trocamos gentilezas. Fiz bilhete e mandei o teimoso do cinto pela ECT/Sedex. No comprovante, observação: a encomenda poderia demorar em face da greve dos caminhoneiros. Brasil,zil, zil. Ligo para a filha: o cinto estava a caminho. Se consegui trazer você até aqui e contar este caso banal de pai e avô meio sem jeito, sinto muito.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/03/2015.

