“Raramente a verdade é pura, e nunca é simples”.
Oscar Wilde, escritor
inglês, 1854-1900
A edição publicada neste ano de 2014 da pesquisa “Empresa dos Sonhos dos Jovens” realizada pela Cia. de Talentos, em parceria com a NextView People, abrangeu 52 mil jovens brasileiros, com idade entre 17 e 26 anos, todos com formação em andamento. A eles foi perguntado, entre outras coisas, quais os líderes que mais admiravam no Brasil e no mundo.
O que chamou a atenção nessa enquete foi a reação negativa: 54% dos jovens responderam que não admiravam nenhuma figura pública ou empresarial. Aqui e lá fora. A maioria, portanto, não tinha – ou não enxergava – em quem se espelhar. Não viam referências positivas nas figuras que estão aí a liderar o país, os grandes negócios e o mundo que se contorce para que não corram conflitos mundiais, pois há a propagação malfazeja no Oriente Médio, com a perene disputa entre judeus e palestinos, alimentada por vendedores de armamentos de última geração.
Ao mesmo tempo, a Rússia assume, hoje, posição voluntariosa e firme pelo esforço na anexação de países – ou regiões – que deixaram de fazer parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a antiga URSS, desfeita no começo dos anos 1990. E o faz lastreada por suas reservas de petróleo e gás necessárias à Europa, à China e à Coreia do Norte. Ainda, até agora, não se falou em ideologia. O sentido da luta é hegemonia, poder, estratégia e visibilidade internacional. Além disso, há a não resposta sobre o desaparecimento de um avião comercial e, logo em seguida, o ataque por míssil terra-ar de outro avião, ambos da Malasya Airlines. Afinal, para que servem os satélites que nos vigiam a todos? Há mistério e desencanto que, certamente, influíram nas não respostas dos jovens.
O que isso quer dizer? Várias coisas. A primeira é o desencanto com as figuras centrais da política nacional, da gestão de negócios públicos aos privados. A segunda, é que faltam exemplos de boas práticas e condutas. 28.060 disseram não admiram nenhum líder. A palavra líder pressupõe alguém com características de credibilidade, entre elas, honestidade, consequência no dizer e fazer, exemplo e caráter.
No âmbito mundial, o mesmo pode ser referido dos líderes que hoje têm um aparato de segurança que os torna prisioneiros de seus próprios subordinados e os faz distantes dos que os elegeram, no caso das democracias. No caso das não democracias o que importa, no momento, é o desempenho econômico, o poderio e a propaganda daí decorrente. Posso, sou.
Não vou enumerar os nomes dos líderes que foram escolhidos pelos 46% (25.920) que optaram por opinar. E não o faço em respeito aos que, maioria (54%), reflete o desencanto da nossa juventude com uma sociedade de valores destorcidos e mutantes. A vida precisa ter um significado, uma função social e não o amontoado de escândalos, crimes por questões banais, a proliferação do uso das drogas, a banalização do sucesso mensurado pelas roupas, acessórios, veículos, casas espetaculares e viagens propagadas em alguns veículos da mídia que se especializaram em ser apenas caixas de ressonâncias de uma sociedade perdida pela ausência de valores essenciais.
É claro que cada um pode fazer o que lhe convier com o que tem, mas nada impede, entretanto, inferir que a ostentação de alguns seja apenas um tapume no vazio de suas existências ou, por outro, a euforia da conquista a que se propuseram ao longo de suas vidas. Não há como julgar o íntimo de ninguém, mas fica claro que se é preciso validação – pela exposição exagerada ao olhar do outro – daquilo que se vive, algo não está dentro dos conformes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/08/2014.

