O DESENHO DA LUANA

Luana tem quatro anos. É uma menina muito inteligente, um pouco tímida e observadora. No dia do ato terrorista nos Estados Unidos ela viu alguns noticiários de televisão. Foi para o quarto, apanhou um papel, lápis coloridos e desenhou uma grande torre. Cada espaço ou andar era representado por uma cor diferente. Colidindo com a torre pintou um simulacro de avião bojudo. Lá no pé da página vagões coloridos formavam um trem. Sua mãe pediu que ela assinasse o desenho. Ela recusou. Outros tentaram, sem êxito. Pode ter sido a tal da timidez, mas, por outro lado, talvez ela quisesse dizer que não legitimava o que vira e registrara, agregada à sua imaginação, no papel. É provável que o trem seja o comboio em que todos estamos metidos sem saber qual o destino.
Este fato me veio à mente, após ter conversado com alguns amigos que estão apreensivos com perguntas de filhos e netos. As perguntas mais repetidas: O que é uma guerra? Vai haver guerra? Guerra contra quem?
Os brasileiros vivos, na sua maioria, não sabem o que é uma guerra. A última participação brasileira em guerras foi de 1944 a1945, anos finais da Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, salvo o episódio da guerrilha do Araguaia, as nossas armas estão virgens de guerras, embora quentes de assaltos, sequestros, assassinatos e afins.
Como explicar, então, o que não entendemos. As guerras que conhecemos são as dos filmes americanos e as últimas, a partir da Guerra do Golfo, já televisionadas ao vivo. Somos, na verdade, expectadores passivos da brutalidade do mundo. Passivos em todos os sentidos: não participamos, tampouco nos indignamos, pois tiramos os olhos das atrocidades expostas nos jornais, revistas, televisão e fitamos a comida nas salas de refeições sem mudança de apetite.
Estamos pasmos. Sem saber explicar nada e mais ainda por não termos a coragem de assumir que todos somos culpados. Não adianta apenas culpar uma etnia, país ou grupos de fanáticos. Eles são produtos da nossa indiferença. Da desigualdade que plantamos com a nossa ambição desmedida, em busca de status que não leva a nada, da morte da comiseração e do amor ao próximo. Somos, quase todos, centrados em nossos umbigos e não vemos um palmo adiante dos nossos narizes. O mundo tem mais de 6 bilhões de pessoas. Metade vive em miséria quase absoluta. A outra metade pouco se dá conta disso e nada faz para tornar o mundo menos injusto. Fome, doença, desemprego e desengano não são problemas dos outros. São mísseis que atingem ou atingirão os indiferentes.
Cada um pode e talvez deva travar uma guerra íntima, sem testemunhas, a não ser a sua própria consciência, para descobrir o quanto estamos perdidos e errados. Antes de fazermos acertos de conta com os nossos algozes, temos que apascentar as nossas consciências, perdidas que estão pela ausência de valores essenciais. Nessa hora, quem sabe, o trem de nossas vidas possa ter um bom destino.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2001.

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