Eu sou um dos dinossauros da profissão de administração. Fui aluno da primeira turma e, se me lembro bem, junto com um punhado de colegas, andei ajudando no processo de reconhecimento do curso de administração, na regulamentação da profissão e até nas escolhas do símbolo e da cor da pedra do anel de formatura.
A profissão era absolutamente nova. Ninguém tinha idéia exata do que aprender e, muitos professores, do que ensinar. Era um processo de ajuda mútua, de erros e acertos, ajuste de currículos e mudança de sede emprestada, para alugada e, finalmente, própria.
Foi uma luta muito grande. Pouca gente sabe disso e, os poucos que sabem, não lembram ou fazem idéia das idas ao MEC e das vindas de comissões do Ministério de Educação para aprovar o curso. Vestibular, pasmem, foram dois. O primeiro não valeu, apesar de aprovados e cursando até outubro. Tivemos que fazer um novo e repetir o primeiro ano. Alguns desistiram, outros foram em frente.
Hoje, passados tantos anos, vejo que a luta não foi sem sentido. Da Escola de Administração já saíram ministros, um governador e um vice (os atuais), prefeitos, senadores, deputados federais e estaduais, administradores de empresas multinacionais, nacionais, regionais, estaduais e locais. Isso é um dado bastante positivo e pode servir de referência para a história.
Por outro lado, sei que isso pode parecer coisa do passado e “o passado não move moinhos”. Acontece que não temos moinhos de vento e o passado, neste caso, é que dá autoridade a algumas pessoas para propor uma revisão crítica da carreira do administrador e a conseqüente melhoria da qualidade do ensino. Melhorar significa dar uma qualidade maior às coisas boas que são feitas. Melhorar é tornar-se capaz em face das condições emergentes deste século novo que vai começar em poucos meses.
A globalização e a competição desenfreada germinaram tudo isso. Nós estamos ai com um mundo completamente diferente, por exemplo, de há dez anos. A velocidade das transformações dos processos de gestão cria essa angústia em profissionais recém formados que não têm ferramentas para ingresso no escasso mercado de trabalho e, por outro lado, elimina os que não souberam se ajustar ao mundo informatizado e prenhe de novas informações e conhecimentos.
Não basta, por exemplo, fazer esses cursos de especializações e MBAs, muitos sem consistência e visando apenas fornecer diplomas em troca de dinheiro.
Recentemente, soube de um processo de seleção promovido por um “headhunter” para “trainees” ou profissionais recém-formados. Fizeram uma pré-seleção com avaliações específicas da profissão e de conhecimentos gerais. Passaram uns 20% dos inscritos. Na segunda etapa, colocaram todos em uma sala às 7.30 horas da manhã e disseram: quem não leu os jornais de hoje pode sair da sala. Em seguida: quem não falar inglês fluentemente, pode sair da sala. Quem não souber utilizar a informática como ferramenta básica, até logo. Os poucos que ficaram ainda tiveram que fazer uma última prova.
O mercado está a exigir mais capacitação, excelência e eficácia. E o mercado não manda mais avisos. Age de olho no futuro que se prenuncia nebuloso para as pequenas e médias empresas e cruel para os profissionais que não estiverem de acordo com as suas exigências, cada dia maiores e mutantes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/07/2000.

