O ENCONTRO – Jornal O Estado

‘O mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a existência do sol, mesmo ainda por nascer
Cacá Diegues
Conheço pessoas inteligentes, capazes profissionalmente, independentes, mas, apesardisso, não tiveram a coragem de marcar um encontro. Esse encontro é duro, fere profundamente e, na maioria das vezes, deixa sequelas. É preciso ter coragem para assumir o risco desse encontro. Não importa que você seja jovem ou velho, bonito ou feio, alegre ou triste, crente ou ateu, casado ou não; o importante é o encontro. Mesmo que alguém ou circunstâncias forcem esse acontecimento, se ele aconteceu não fuja dele, não se esquive com o manto das aparências que nada cobrem e despem até o que é nu por natureza.
Esse encontro é um acerto de contas com o passado e um compromisso com o futuro. E aquele compromisso definitivo consigo mesmo, a que se referia Goethe. A partir desse encontro – e é Goethe quem diz – começa a acontecer todo o tipo de coisas para ajudar a você, o que não aconteceria se esse compromisso não existisse. Uma torrente de eventos emana das decisões favorecendo a pessoa com toda a espécie de encontros imprevistos e de ajuda material que homem nenhum poderia sonhar achar no seu caminho. Tudo o que você puder fazer ou sonhar, você alcançará. Sendo assim, mãos à obra. A ousadia contém genialidade, poder e magia. Comece agora.
Deixando Goethe de lado e encarando a loucura santa do prematuramente falecido poeta Paulo Leminski, é preciso “não discutir com o destino, o que vier eu assino”. É preciso assinar, colocar o nome no que você faz conscientemente, assumir o encontro com o destino. E o que é o destino? Será, por acaso, o mundo das coisas se acasalando ou se chocando com o mundo das ideias ou das palavras? Mas, como diria um filósofo de botequim, é preciso deixar o pessimismo para tempos melhores.
A hora do encontro é tempo de cataclisma e só se vence a tragédia com ação e riso. A ação é o remédio imediato. O riso é a capacidade de não levar a sério o seu drama, de debochar do seu ensimesmamento e encarar de peito aberto a nova consciência de sua individualidade, que o levaria irreversivelmente para a solidão a que todos estão sujeitos, não fora a solidariedade dos que ainda acreditam em você, a começar por você mesmo. É claro que essa hora do encontro nos mete medo. É preciso não ter medo do medo, pois como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones: “O medo é uma coisa boa. Se você não tiver medo, pode acabar pulando pela janela”. Assuma os seus medos e admita que haverá um instante, independente das suas pretensões ou apreensões, em que tudo se tomará claro e o que lhe turvava os olhos passará a ser o colírio que mostrará o brilho da vida.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/10/2008.

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