O FIO DA LEITURA – Jornal O Estado

“Ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros”. Miguel de Unamuno, esc. espanhol, séc 20.
Você está lendo este artigo? Que bom. A relação entre quem escreve e a pessoa leitora é fria. O artigo ou crônica precisa ir mostrando, linha a linha, algo que a emocione ou a atraia. Pode ser concordância ou até zanga por achar que estou tomando o seu tempo. Lembre-se, todavia, que entrego um prato feito a você, sem saber qual a sua preferência. Daí apresentar um problema, uma situação ou um caso.
Você sabia, por exemplo, que a China está, tal como antigamente, proibindo a criação de cães com mais de 35 cm de altura? A polícia acolhe denúncias e recolhe os animais, com medo de que casos da raiva, a doença, se espalhem como em tempos passados. Em 2012, morreram em Pequim 13 pessoas vítimas de mordidas de cães raivosos. A quem assiste razão, ao governo que diz cuidar da saúde ou aos donos apegados a seus cães?
Leio que os torcedores de clubes de futebol local estão querendo fazer manifestações pelas incômodas posições em divisões inferiores do Campeonato Brasileiro. Isso pode ser uma bobagem para você, mas se acontecer, muita gente vai participar e talvez advenham distúrbios. Viu como não é fácil ir puxando a linha imaginária a prender o leitor ao texto? Agora é fim de tarde e daqui a pouco vou atravessar a cidade. Reflito sobre o melhor roteiro. Meu GPS mental indica uma direção, mas desconfio dos engarrafamentos decorrentes da saída simultânea de milhares de pessoas ao mesmo tempo.
Por qual razão a batalha diária de todos começa e termina no mesmo horário? Penso que a tal mobilidade urbana melhoraria se existissem horários distintos para cada serviço em várias regiões da cidade ou para atividades compatíveis com a noite, sem entulharmos as vias com tantos veículos de transportes públicos e particulares.
Ao chegar à minha casa, já cansado, estaciono, subo, abro a porta, acendo a luz, dou alguns passos até ao banheiro e deixo a água regenerar o meu corpo. Penso na humanidade e fecho o chuveiro. Pego a toalha e o corpo reage ao contato. Se você chegou até aqui, obrigado. Viu a colcha de assuntos criados para entretê-lo. Escrever é fácil? Responda, por favor.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/08/2013.

Sem categoria